A Noite

19 de fevereiro de 2021 — Diarices

A primeira vez que ouvi “A Noite”, da Tiê, eu estava ajudando minha mãe a se alimentar no hospital, em 2015. Mal sabia eu que, 5 anos depois, ir ao hospital passar as noites com ela seria rotina novamente.

2020 foi difícil. Eu sei, para todos nós. Porém, como protagonista da minha própria vida, eu me acho no direito de falar que, para mim, foi mais difícil ainda. O câncer é uma montanha-russa de sentimentos, e em meio a tantas emoções, às vezes parece que não sobra tempo para respirar.

Lembro que as noites em que dormia no hospital, tudo que eu queria era poder voltar para casa com ela no dia seguinte. E as noites em que estava em casa, sem ela, tudo que eu queria era poder voltar ao hospital para ficar com ela. E, por muito tempo, depois de tudo, eu tive dificuldade em ouvir certas músicas que costumava ouvir de madrugada no hospital, enquanto olhava ela dormir. Tive dificuldade em continuar livros que comecei naquela época, porque tudo me lembrava àqueles momentos difíceis.

Ver a sua mãe no pior estado possível é uma das maiores dores que alguém pode suportar. Mais do que a morte dela, o que realmente dói e me impede de seguir em frente é lembrar dos momentos em que ela não conseguia falar, momentos em que precisava de ajuda para fazer coisas simples, até os dias em que ela não conseguia mais andar… E, às vezes, no meio de um dia completamente normal, todas essas lembranças voltam e me fazem derrubar lágrimas como se estivesse tudo acontecendo no exato momento.

E eu faço tudo que eu posso para tentar ressignificar essas memórias, mas não é fácil. Ao invés de pensar em cada dia no hospital como algo ruim, eu tento lembrar que cada dia no hospital foi um dia a mais com ela. Que cada momento ruim que passamos naquela época foram momentos que só puderam existir porque ela ainda estava aqui. E, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com uma bola entalada na garganta, eu consigo sentir gratidão.

Gratidão por ter tido ela como minha mãe. Gratidão por poder ter estado ao lado dela até os últimos momentos. Gratidão por ela ter ido em paz. Gratidão por ter compartilhado 25 anos da minha vida com ela.

Não é um processo fácil e rápido, mas aos poucos eu vou ressignificando. Enquanto isso, vez ou outra, ainda dói. Aqueles dias e noites no hospital certamente foram os piores momentos da minha vida. E, ainda assim, às vezes eu sinto que daria de tudo para voltar…