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A Última Página: O coelho que mais viu estrelas

3 de outubro de 2021 — Escritos

É com grande orgulho que venho anunciar que um conto meu foi publicado n’A Última Página. Este projeto, idealizado por Victor Alfons e Gabriel Coutinho, busca valorizar a literatura de terror nacional do jeito que mais faz sentido possível: pagando. De tempos em tempos, eles realizam concursos de contos de terror e os ganhadores recebem prêmios em dinheiro — pode não ser um acordo com uma editora, mas sinceramente para quem, assim como eu, escreve este tipo de literatura como hobby, acaba sendo uma baita oportunidade!

Neste post, resolvi falar um pouquinho sobre o processo de criação do conto. Recomendo dar uma lida no conto antes (não é muito comprido, juro!), e você pode fazer isso clicando aqui.

O meu conto é no formato de um relato de uma missão lunar, na qual a personagem principal narra o que está acontecendo, intercalando com descrições dos acontecimentos dos dias anteriores na missão e seus pensamentos e percepções acerca da situação. Ela fala sobre criaturas que parecem estar perseguindo eles, mas não dá muitos detalhes sobre o quê estas criaturas fazem, apenas descrições vagas de como se parecem ou como seus “grunhidos” soam.

Eu quis fazer um monstro que não tivesse uma descrição exata justamente porque adoro deixar para a imaginação do leitor, mas ao mesmo tempo eu precisava oferecer algumas pistas de sua aparência para que pudesse fazer a conexão com a lenda do coelho da lua, também conhecido como Coelho de Jade na versão chinesa da lenda. Não posso mentir e dizer que não me inspirei nos monstros do horror cósmico, que são difíceis de descrever e que geralmente estão além da compreensão humana — por isso, o descrevi como uma espécie de coelho meio deformado, com mais olhos do que deveria (inspiração bíblica, sim ou sim?), enfim. Quis passar a ideia de algo relativamente familiar mas estranho ao mesmo tempo, meio unheimlich.

Quem me acompanha sabe de onde tirei a ideia de usar a lenda do Coelho de Jade como inspiração, bem como o fato da história se passar em uma missão lunar — exatamente, se você chutou “You Are My Glory”, saiba que acertou! Para os que não sabem, You Are My Glory é um drama chinês no qual acompanhamos o romance de uma atriz e modelo famosa e um engenheiro aeroespacial chamado Yu Tu, cuja pronúncia do nome lembra a pronúncia de “coelho de jade” em chinês, acarretando em várias referências à lenda durante os episódios.

Pensei nesta ideia um dia, mas achei que seria ridícula e deixei para lá. Depois, na noite do dia 27 (2 dias antes de encerrar as inscrições para o concurso), no banho, acabei tendo aquela inspiração divina que só banhos relaxantes dão, saí correndo do banheiro, mal me sequei e me vesti o mais rápido possível e me pus a escrever. Foi um daqueles momentos em que o flow bate e eu esqueci de todo o resto do mundo enquanto escrevia. Tive de procurar algumas coisas no Google, como o nome da galerinha que foi à lua lá em 1969 (só conhecia o nome do Armstrong), mas em pouco tempo consegui criar uma história relativamente coerente e pus a mão na massa. Ou os dedos no teclado, se preferir.

Talvez a minha cabeça seja caótica, porque nela tudo se mistura e se transforma em um produto completamente diferente. Hoje, vejo claramente que tudo aquilo que julguei como original em mim sempre foi um punhado das várias coisas ao meu redor, que eu peguei e processei de forma a criar algo diferente. Como se e eu fosse um processador de comida, mas eu processo histórias, desejos, sonhos, e transformo tudo isso em algo que faça sentido por meio das palavras.

E é assim que se transforma um drama chinês de romance que não tem absolutamente nada de assustador em um conto de terror. E também é assim que se vence um concurso no qual você estava planejando participar há meses, mas já tinha meio que desistido por julgar todas as suas ideias meio meh. Ok, na verdade não é assim. Mas, como em tudo na minha vida, para mim foi assim. E mesmo que, no fim, eu acredite só ter tido muita sorte ao invés de tudo isso ser fruto do meu empenho, a verdade é que eu escrevi, e minha criação foi aceita, e eu ganhei por isso. Então eu não poderia estar mais orgulhosa, apesar dos apesares. ♥


2 respostas em “A Última Página: O coelho que mais viu estrelas”

Alê Araújo disse:

Oi, Masha! Parabéns pelo concurso! Reconhecimento em forma de dinheiro é sempre muito bom, tem mais é que se orgulhar mesmo. Tenho consumido muito conteúdo sobre criatividade e o processo é exatamente esse para muitos criativos: um bando de referência misturada e cada um constrói o seu próprio Frankenstein. Obrigada por ter deixado um comentário no meu blog! Beijos.

Snow disse:

Oi Masha! Dizer que faz um bom tempo que não me ponho a ler algo seu já deve ter se tornado um apelido bonito em algum lugar por aí mas bem, calhou de hoje pela madrugada eu cair por aqui enquanto comia mingau. Uau. E essa postagem em especial me chamar a atenção, por isso vou deixar um comentário nela se não se importa.

Gosto muito de saber dos processos criativos de outras pessoas que gostam de escrever, é algo muito singular que acaba deixando de ostentar a singularidade quando percebo que mudando uns pontos ou outros, não variam muito do que acontece comigo numa produção (por mais amadora que seja). Acabei lendo a postagem antes do conto e acabou sendo bem mais interessante assim, calhou que aproveitei melhor a leitura dessa maneira e o nome do conto também é muito agradável, mesmo que trate de um texto nada “fofo”. Na verdade notei que existem muitas lendas que preciso conhecer haha!

Enfim, meus singelos parabains pela conquista :B

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