Masha Alkhim

Diarices / 5 de maio de 2021

Sobre tentar algo novo

Meu cabelo não é naturalmente liso, mas também não é muito ondulado. É como se ele tentasse formar ondinhas mas desistisse no meio do caminho. E, por conta disso, para conseguir deixar ele de um jeito que eu gosto, preciso ou da chapinha, ou usar alguma técnica para modelar as ondinhas. Sem falar que, quanto mais comprido o cabelo, mais pesado ele fica, deixando ainda mais difícil definir as ondas. No fim, fica um negócio meio estranho, meio torto, sei lá. Só quando está bem comprido (o que raramente deixo acontecer, por motivos de impaciência) que fica bonito: o peso deixa a raiz bem lisa, enquanto as pontas formam lindas ondinhas. Porém, no comprimento de cabelo que eu realmente gosto (no máximo até o ombro), esse padrão não fica legal, não. E eu acabo sempre perdendo a paciência e cortando bem curtinho, ou raspando mesmo (saudades carequinha, viu). Hoje, resolvi usar a técnica mais simples de todas, que aprendi quando tinha 13 anos mas sempre tenho preguiça de aplicar: a fitagem. Engraçado que essa técnica é mais para cabelos cacheados e crespos, mas no caso do cabelo levemente ondulado, como o meu, ele ajuda a definir as ondinhas.

Eu gostei bastante do resultado, apesar de não ser tão visível por foto. Acho cabelos ondulados e cacheados bem bonitos, mas por conta da praticidade, sempre recorri ao cabelo liso mesmo. Interessante que recebi vários elogios por conta desse cabelo, tanto nas redes sociais quanto em casa. Confesso que estou meio entrando em crise, pois sinto que estou perdendo meu rosto de menina e aos poucos ficando com rosto de mulher, e sinceramente não sei se gosto muito disso… Queria ser fofinha para sempre, risos. Enfim, quem sabe essas mudanças me ajudam a lidar melhor com essa fase, não?

Diarices / 22 de abril de 2021

Quero voltar ao último domingo

Não estou comendo de forma saudável e meus hábitos de sono estão todos desregulados. Ando cuidando mais das minhas ratas do que de mim mesma, e isso que ainda me considero bastante negligente com elas. No psiquiatra, ouvi que não era preciso aumentar a dose do antidepressivo porque toda a pressão e desmotivação que eu ando sentindo é considerada uma resposta emocional adequada ao que estou vivendo. Sem falar no frio, que chega aos poucos e me faz querer enrolar as ratas em cobertores importados, enquanto eu permaneço de manga curta com a rinite a todo vapor, como se eu estivesse testando os limites do meu corpo. Talvez, no fundo, eu queira ficar doente. Será que assim eu posso descansar um pouco?

Eu queria poder voltar ao último domingo. Foi o melhor domingo que tive em meses. Um daqueles domingos preguiçosos, nos quais não precisamos sair da cama, acompanhada de meu namorado e das duas ratinhas, que dormiram o dia todo debaixo das cobertas. Vocês não têm ideia do quanto essas meninas cresceram nas últimas semanas. Estão gigantes! E cada dia mais destemidas para explorar mais. Estou com planos de fazer algumas adaptações na gaiola, para torná-la mais divertida para ratos, bem como fazer alguns brinquedos bacanas para que elas brinquem bastante quando estão soltas.

Meu namorado e minhas ratas têm sido minhas maiores fontes de alegria nos últimos tempos. Eu amo meu curso e estou adorando atender na clínica, mas mentiria se dissesse que estou perfeitamente feliz — sinto que não estou tão preparada quanto deveria estar, ainda que eu tenha feito várias leituras ao longo dos anos e até mesmo durante as férias. Felizmente, minha supervisora é ótima e consegue passar várias orientações úteis, que permitem com que eu não me sinta tão perdida durante os atendimentos, mas a ansiedade e o desespero de não saber exatamente o que falar ou fazer sempre acabam aparecendo e me deixando bem sobrecarregada.

Quanto aos outros estágios, andam a passos de tartaruga, o que já era esperado que acontecesse em tempos de pandemia. Algumas coisas não ficaram muito claras, alguns orientadores não conseguem orientar muito bem, e eu me sinto jogada ao vento como se, ao invés de testar os conhecimentos de psicologia que adquiri ao longo do curso, estivessem testando a minha capacidade de ser funcional em meio ao mais completo caos. E, infelizmente, eu já não sou muito funcional quando está tudo bem, então quem dirá agora…

Sinto-me desconectada de uma parte de mim que me importa muito, mas também sinto que não posso voltar porque, agora, não é a hora. É hora de focar nos estágios, hora de focar em construir conexões para iniciar uma carreira, hora de provar ao mundo que, no fim das contas, tudo valeu a pena. E eu não discordo: valeu a pena sim, e continua valendo, e provavelmente valerá por toda a minha vida. Eu só queria não ter que precisar provar nada para ninguém.

Diarices, Ratologia / 5 de abril de 2021

São as ratas, são as ratas bem malandras!

Ontem, dia 4 de abril, além de ter sido Páscoa, foi também o Dia Mundial dos Ratos. Achei que seria uma oportunidade maravilhosa para apresentar a Moranga e a Titânia, as duas ratinhas que adotei no dia 31/03. Contudo, a preguiça me pegou de jeito e deixei para escrever sobre isso hoje.

Já falei no blog sobre meu desejo de adotar ratinhos, falei sobre algumas características destes animais como pets, e estive há meses lendo e estudando sobre ratos, até que finalmente no dia 31 consegui adotar duas nenezinhas. São ratinhas recém desmamadas, então ainda são pequenas, mas já são bem sapequinhas e gostam de explorar bastante. A Moranga é de uma coloração meio creme, é tão clarinha que se você não prestar a atenção, ela até parece branquinha. Seus olhos são rubi, um vermelho bem escuro (no escuro, pode até parecer castanho) e ela é cerca de duas vezes maior que a Titânia. Já a Titânia é uma American Blue, uma pelagem cinza bem clarinho, e seus olhos são pretinhos. Ela é bem menorzinha, mas já está crescendo e acredito que no futuro ela irá alcançar a Moranga em tamanho.

No primeiro dia, o medo delas era muito grande, então elas ainda estavam apenas cheirando aqui e lá, se a gente tentasse pegar elas na mão, elas fugiam, guinchavam bastante e ficavam recolhidinhas no cantinho da gaiola. Neste momento, elas ainda não tinham percebido que tinha uma toquinha para elas se esconderem, então acabaram dormindo no chão da gaiola encolhidas, com muito medo.

Já no segundo dia, descobriram a existência da toquinha. A partir daí, elas começaram a se sentir um pouquinho mais a vontade na gaiola, porém passavam quase o dia inteiro dentro da toca, provavelmente ainda com bastante medo de nós. Eu e meu irmão ficávamos colocando nossos braços dentro da gaiola com certa frequência pra que elas se acostumassem com nosso cheiro, com nosso braço, e percebessem que não éramos uma ameaça.

Assim elas prosseguiram nos outros dias: sempre se escondendo, saindo da toquinha para explorar somente quando estávamos longe, pois ainda tinham medo de nós. Depois de um tempo, começaram a perceber que a gente trazia comida e água, então aos pouquinhos foram confiando em nós. Até que, no final de semana, conseguimos pegá-las na mão sem estresse — tão sem estresse que, agora, se eu colocar meu braço dentro da gaiola, a Titânia já vem correndo subir nele pra vir no meu “colo” (que na realidade é meu ombro).

Mas a Titânia não é a única que gosta de subir em mim (e no meu irmão e no meu namorado, risos). A Moranga gostou tanto do negócio que até adotou meu pescoço como caminha pra tirar umas sonequinhas!

Mas nem tudo são flores, é claro. Ratos são conhecidos por não controlarem muito suas bexigas e intestinos, então é bem frequente que, enquanto estamos manuseando as ratinhas, aconteçam “acidentes”. Ou seja, além de ser caminha de rato, também virei banheiro de rato, risos.

Estou alimentando as ratas com a ração Equilibrato e ocasionalmente ofereço alguns petisquinhos. Porém, como elas ainda são pequenininhas, elas precisam de um complemento de proteína, e esse final de semana dei ovo cozido para elas. A Titânia adorou o ovo, não parava de comer, enquanto a Moranga olhou pro ovo e parece que ficou com raiva dele: começou a morder e rolar o ovo mas sem comê-lo, ela só queria destruir o ovo mesmo, hahahah! Porém, como ela não comeu o ovo, vou precisar procurar outra proteína pra complementar, já que aparentemente ela não curtiu muito.

Também dei maçã para elas, e as duas gostaram da maçã, mas não estavam com muita fome então resolveram esconder os pedaços na toquinha para comer depois. E realmente comeram, porque quando fui limpar a toquinha no outro dia, não tinha nenhum pedacinho de maçã sobrando. Por fim, também demos um pouquinho de banana amassada com flocos de aveia. Novamente, Titânia ficou extremamente animada com a banana, dava pra ver a alegria nos olhos dela enquanto ela comia. Já a Moranga, inicialmente, não ligou pra banana. Não parava nem pra cheirar direito, risos. Porém, depois de um tempo, meu namorado ofereceu a banana de novo e ela finalmente aceitou. Pelo jeito, a Moranga puxou à cuidadora: fresca pra caramba pra comer, hahah!

Esse post já tá meio compridinho, então vou deixar para falar mais sobre elas em outros posts, risos. Finalizo deixando claro que estou completamente apaixonada pelas minhas meninas. Elas tem trazido muita alegria e amor pra esse coraçãozinho em burnout da pandemia. Espero que possa compartilhar dessa felicidade com vocês! ♡

Diarices / 29 de março de 2021

Eu desisti de todos os meus sonhos

No final de 2019, pela primeira vez na minha vida eu tive meus sonhos muito bem definidos: minha formatura e viajar para a China. Em 2020, eu desisti de tudo.

O ano já começou com um chute no estômago com o diagnóstico da minha mãe. Quando o médico nos informou do tempo de sobrevida, eu tive certeza que ela não estaria presente no dia da minha formatura, que deveria ser um dos melhores dias da minha vida — sabe aquelas meninas que passam suas vidas inteiras sonhando com o dia do casamento? Pois bem, passei minha vida inteira (dos últimos meses de 2019, claro) sonhando com o dia da minha formatura (afinal, não tive formatura do ensino fundamental, do médio e, pelo andar da carruagem, não terei da graduação também). Como poderia ser um dos melhores dias da minha vida sem a minha mãe? Eu sei que enquanto eu estiver viva, serei capaz de vivenciar milhares de coisas boas, serei capaz de sentir alegria e ter dias bons, mas todos eles serão dias sem a minha mãe. E eu sinceramente não sei se qualquer dia sem ela mereceria o título de melhor dia da minha vida.

Pois bem, como se já não fosse o suficiente, veio a pandemia. Quando vi as primeiras notícias, na metade de janeiro, já imaginei que, se o negócio chegasse no Brasil, seria caótico. Eu previ a cagada que ia dar e não foi nem questão de sexto sentido, foi questão de simplesmente compreender o que um governo com ideais neoliberais faz. Portanto, já fui riscando também o sonho de visitar a China a qualquer momento em breve…

A coisa já está bem controlada lá, mas não aqui. Então, mesmo que eu tivesse todo o dinheiro do mundo, eu não seria capaz de ir para a China hoje — afinal, as portas estão todas fechadas para voos do Brasil. E só Deus sabe quando elas vão abrir novamente, e depois que abrirem, quando eu vou conseguir um emprego e conseguir juntar dinheiro o suficiente para viajar, e quando eu tiver esse dinheiro, quem sabe eu não consiga tirar férias para conseguir ir lá visitar, afinal de contas agora que pode descontar idas ao banheiro das férias, vai ver eu vou passar todas as minhas férias no banheiro mesmo.

Com isso em mente, resta-me um total de 0 (zero) sonhos. Se tudo der certo, ainda vou me formar, mas a formatura já foi pras cucuia (ou vocês acham que até a data limite já vai ser possível realizar eventos de grande porte? eu sinceramente não tenho nenhuma esperança), e a viagem pra China, bem, vai depender de uma caralhada de coisa que tá longe de estar ao meu controle.

E eu sei que “desisti dos meus sonhos” não é o que as pessoas gostariam de ouvir, eu sei que isso me faz parecer uma pessoa extremamente pessimista e amargurada. Quem sabe eu seja mesmo. Mas eu vou dar uma de coach e maquiar as palavras para tornar esse texto em uma linda mensagem motivacional.

Não é que eu desisti dos meus sonhos, é que eu olhei as circunstâncias ao meu redor e… me adaptei.

Diarices, Reflexões / 25 de março de 2021

Sobre sonhos e o “processo de cura”

Trigger Warning/Aviso de Gatilho: traumas, abuso sexual infantil, luto.

Esta noite, eu tive um dos sonhos mais significativos em muito tempo. Claro, tenho sonhos significativos direto — acontece quando você gosta de ficar “analisando” os próprios sonhos¹ —, mas geralmente nenhum deles fala comigo tão claramente quanto este.

O sonho era um clipe. Ou melhor, dois clipes. Uma banda (existente apenas na minha fantasia) tinha feito dois clipes para duas versões de uma mesma música. Um clipe era continuação do outro, e essa é a informação chave desde sonho. Um clipe era continuação direta do outro.

O primeiro clipe retratava um protagonista masculino andando por uma instituição de ensino, que acredito ter sido a escola em que ele estudou quando criança. Ele andava e observava os detalhes com um olhar nostálgico, mas também angustiado, que faria a audiência questionar o que teria acontecido naquela instituição no passado para que o protagonista se sentisse daquela forma. A letra da música falava sobre momentos difíceis, claramente um trauma na vida do protagonista. Porém, ao final da canção, ficava claro um sentimento de superação, mostrando que, aos poucos, o protagonista estava conseguindo ressignificar suas vivências, impedindo que a sombra do trauma transformasse tudo em um universo de escuridão e desespero.

Eis que começava o segundo clipe. Passava-se na mesma escola, e a música era idêntica no início. Até que, em uma determinada cena, o protagonista se sentava ao lado de um zelador já idoso, e olhava para ele com olhos carregados de sentimentos como raiva e culpa. Então, a música mudava drasticamente de tom, contendo agora berros e guitarras distorcidas, revelando uma profunda angústia até então supostamente superada. A audiência então é levada a um flashback no qual o protagonista, agora criança, era sexualmente abusado pelo zelador, desvelando assim o conteúdo do trauma que o protagonista carregava consigo pelos corredores da instituição. O clipe terminava com cenas escurecidas nas quais o protagonista saía correndo pela instituição, como se estivesse tentando liberar a raiva contida de alguma forma, ou até mesmo tentando fugir da sombra que agora pairava sobre seu mundo. Não sei dizer claramente.

De qualquer forma, ao final dos dois clipes, fiquei curiosa acerca dessa ordem. Não faria mais sentido o segundo clipe ser mostrado antes, e o primeiro clipe então mostraria a superação do protagonista?

E foi aí que caiu a ficha. A obra, como um todo, tratava-se do tal “processo de cura”. Entre aspas porque não sei se é possível falarmos de uma cura de fato, como uma pessoa que se livra de uma doença e nunca mais é importunada pela mesma. A “cura” psíquica, ao meu ver, nunca é uma cura neste sentido — e é exatamente isso que a obra mostrava. Não se trata de um processo linear, mas sim de uma espécie de montanha russa, com diversos altos e baixos. Às vezes, os vales podem ser maiores que os picos, mas isso pode ser compensado pela presença de picos mais compridos do que os vales.

Quando se trata de um trauma, a cura nunca é assim:

Ela sempre é assim:

E essa linha se estende pelo tempo necessário; não raramente até os últimos dias de vida. Certas coisas, levaremos conosco para nossos caixões. E o mais importante é que tá tudo bem. O mais importante é que a obra tentava mostrar que não tem problema ter recaídas, e que está tudo bem nunca realmente superar um trauma. Dói, machuca, mas é parte da vida. O que não pulsa está morto.

É claro que a minha história pessoal é completamente diferente da história do protagonista. Os sonhos frequentemente nos mostram as mensagens que precisamos ouvir, mas de formas completamente mascaradas. O meu trauma não tem nenhuma semelhança com o trauma vivido pelo protagonista, a não ser o fato de que pulsa, o fato de que se faz presente, o fato de que está sempre ameaçando cobrir o meu mundinho com sua escuridão.

Eu frequentemente sonho com os conteúdos do meu trauma. Não é raro que eu tenha sonhos nos quais está acontecendo tudo de novo. E tudo isso me faz me questionar até que ponto eu estou superando este trauma e até que ponto ainda é algo que mobiliza muita energia em mim. Estou começando os estágios clínicos este semestre, e uma demanda que esperamos que surja frequentemente é o luto, e eu pessoalmente tenho medo que isso mexa demais comigo, afinal de contas, até mesmo para mim, a ferida ainda está bem aberta.

Pessoalmente falando, acredito que este sonho veio para me mostrar que tudo bem a ferida ainda estar aberta, tudo bem eu continuar sangrando um pouquinho de vez em quando. Isso não vai se resolver em pouco tempo, eu ainda terei que lidar com diversas recaídas. E isso não deveria ser, jamais, um motivo para que eu pare de fazer o que estou fazendo: ajudar a promover a saúde mental. Eu não posso deixar a possibilidade de um conteúdo mexer comigo me impedir de exercer a minha profissão. Pelo contrário, às vezes mobilizar toda essa energia em conjunto pode trazer transformações benéficas até mesmo à minha própria saúde mental.

Por fim, gostaria de compartilhar esta mensagem. O sonho foi meu, mas pode dizer muita coisa para muitas pessoas. Precisamos sempre lembrar que o processo de cura nunca é linear, e que não tem problema nenhum precisar de ajuda quando nos encontramos nos vales profundos.

¹ Coloquei “analisando” entre aspas porque acredito que o processo de autoanálise é sempre uma questão meio complicada, e uso o termo aqui no sentido original da palavra, não psicológico. A palavra análise significa literalmente quebrar algo em partes, frequentemente com o objetivo de inspecionar mais cuidadosamente estas partes, e é basicamente isso que faço com meus sonhos: separo alguns componentes mais significativos e tento compreender que mensagem poderia estar sendo passada para mim, mas, claro, não é a mesma coisa do que ter um psicólogo ajudando nesse processo. Achei importante deixar esse disclaimer aqui: se você quer entender seus próprios sonhos, recomendo procurar um psicólogo (em especial psicanalistas e psicólogos junguianos).

Diarices / 18 de março de 2021

Não nasci pra ser blogueira

Atenção: post desabafo confuso. Leia por sua própria conta e risco.

Como pessoa que está no blogosfera há mais de 10 anos, é claro que este título parece um pouco irônico, mas não é. Eu realmente não nasci para ser blogueira. De fato, eu não nasci para ser nada.

Quando eu tinha 10 anos de idade, meu pai criou um blog no qual raramente postava alguma coisa. Eu fiquei animada com a ideia e quis criar um para mim também. Claro que, aos 10 anos, eu não tinha muito o que postar, então eu inventava um monte de balela aleatória e postava que amava meus leitores umas 15 vezes por dia. Era péssimo.

A medida em que o tempo foi passando e eu fui ficando mais madura, eu comecei a escrever algumas coisas mais elaboradas. Durante a minha adolescência, esse negócio de blogar conseguiu me manter relativamente sã durante umas boas crises, e eu aprendi que a escrita poderia ser outro meio de expressar minhas emoções. Por muito tempo, eu só consegui escrever quando estava me sentindo mal, sendo que acreditei até mesmo que eu não conseguiria jamais escrever qualquer coisa se estivesse bem. E acho que, ano passado, quando tudo aconteceu, foi o período da minha vida em que mais escrevi, e eu estaria mentindo se dissesse que está tudo bem agora — eu continuo com os mesmos problemas de sempre, afinal, um diagnóstico de transtorno mental frequentemente é para a vida toda. Contudo, eu não tenho mais vontade de escrever sobre a minha tristeza.

Talvez eu tenha aprendido a expressá-la de outras formas, talvez eu esteja preocupada com a minha autoimagem. Ou talvez eu só não esteja triste o bastante para escrever. Não sei. Só sei que tenho tido dificuldade em escrever, mesmo quando as coisas não estão bem.

Já tentei pensar em muitas coisas sobre as quais escrever. Já fui atrás de dicas de blogueiras grandes, mas nada do que elas sugeriam me interessava. Também já pensei em focar mais em um assunto ou outro, fazer um blog de nicho até, mas a ideia nunca foi pra frente pois eu simplesmente me tremo inteira só de pensar em me comprometer a um tema apenas (ou temas análogos). E desde que eu criei este blog, eu tentei encontrar algum assunto que fosse uma espécie de cola que pudesse colocar todos os posts numa mesma temática, mas a verdade é que eu simplesmente não consigo manter nenhum tipo de consistência.

Eu vejo blogueires e youtubers que conseguem fazer algo consistente, mantendo uma temática, mesmo nos conteúdos mais pessoais elus conseguem manter alguma sensação de coerência com a temática geral da qual tratam, e eu jamais consegui fazer algo assim. Porque, enquanto as pessoas conseguem manter interesses por anos a fio, eu simplesmente mudo de interesses o tempo inteiro. Eu fico obcecada por algo durante algumas semanas ou meses, e depois eu simplesmente nem sinto mais falta daquilo. Enquanto algumas pessoas conseguem usar alguns de seus interesses como parte de suas identidades, eu simplesmente não consigo. Porque, se eu fizesse isso, eu teria que mudar de identidade com uma frequência absurda. E eu sei que ninguém é a mesma pessoa durante todas as suas vidas, eu sei que interesses mudam e que aquilo que vemos em nos blogs/canais de “influencers” são simplesmente uma fração de suas vidas, não quem elus são ou serão pra sempre. E se elus não precisam se comprometer de verdade em continuar sendo a mesma pessoa sempre, então eu também não preciso. Mas eu também não suporto a ideia de ser uma sacola ao vento, que às vezes enrosca aqui, às vezes enrosca lá, e no fim das contas eu simplesmente não consigo me comprometer com absolutamente nada.

Junto a isso, eu percebi que o meu amor por web design e desenvolvimento só crescia, a medida em que eu ia aprendendo as coisas no WordPress eu ficava mais e mais animada em construir páginas, e talvez seja este o problema. Eu gosto mais da etapa da criação do que qualquer outra etapa na manutenção de um blog, site ou qualquer outra coisa. Entretanto, ao mesmo tempo, eu percebi que eu ainda tenho um caminho imenso a percorrer se algum dia eu quiser levar essa coisa de desenvolvimento web de maneira minimamente profissional. Eu ainda tenho muito a aprender, e diante de tanta coisa eu não consigo deixar de me sentir um tanto quanto… desmotivada.

Em geral, eu sou uma pessoa que gosta muito de aprender coisas novas. Adoro adquirir conhecimento, e posso passar dias inteiros estudando os assuntos que eu gosto. Ou seja, geralmente, eu amo estudar e me sinto bastante motivada para tal. Mas não dessa vez. Agora, parece-me que eu simplesmente nunca vou saber o suficiente para nem mesmo conseguir procurar alguma vaga ou cliente para os meus trabalhos. E eu não sei se isso é uma espécie de síndrome do impostor — até porque já vi gente com menos conhecimento que o meu conseguindo ser pago para fazer essas coisas — ou se realmente esse negócio todo simplesmente não é pra mim. E talvez não seja mesmo; talvez não exista nada para mim.

Mas, novamente, eu não nasci para ser nada. E, logicamente, nada é para mim. Sendo assim, eu tenho a completa liberdade de escolher fazer ou não fazer. O problema, na verdade, não é que eu não nasci para isso. O problema é que eu simplesmente não sei o que eu quero. Seria demais querer que estivesse tudo bem assim?