Masha Alkhim

Livros / 25 de abril de 2021

A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver (Ana Cláudia Quintana Arantes)

“Em A morte é um dia que vale a pena viver, Ana Cláudia tem a coragem de lidar com um tema que é ainda um tabu. Em toda a sua vida profissional, a médica enfrentou dificuldades para ser compreendida, para convencer que o paciente merece atenção mesmo quando não há mais chances de cura. Após toda a luta, agora os Cuidados Paliativos têm status de política pública, recebendo do Estado a atenção que ela sempre sonhou.”

Sinopse da Amazon

Não lembro exatamente como tive meu primeiro contato com este livro, mas acredito que foi uma indicação de um amigo meu (psicólogo) quando contei as notícias de que minha mãe estava terminalmente doente. Não consegui ler o livro naquela época — a dor era constante e acredito que eu não aguentaria um livro deste teor naquele momento. No entanto, recentemente, acabei topando com o livro em uma dessas esquinas da vida (a.k.a. grupos de pirataria do Telegram), e resolvi ler. Foi uma leitura muito mais leve do que eu imaginava, especialmente pelo jeito que a autora fala sobre a morte, ou melhor: sobre a vida.

“Não há fracasso diante das doenças terminais: é preciso ter respeito pela grandeza do ser humano que enfrenta sua morte.”

Ao abordar a questão dos cuidados paliativos, a autora faz questão de destacar o pensamento que eu tentei manter durante aqueles meses nos quais minha mãe se encontrava doente: fazer o que for possível para a pessoa que está viva hoje. Apesar de estar lidando com o processo de morte, a vida desta pessoa ainda não acabou, e não podemos agir como tal. Ainda há muito que pode ser feito, ainda é possível viver, mesmo diante da morte. Sinto que não fiz uma boa tarefa com a minha mãe, admito — o estresse provocado pela doença acabou pesando demais às vezes, o que causou alguns momentos de desentendimento, momentos de tristeza e dor, mas o principal é que, a medida em que a consciência de minha mãe se tornava mais reduzida, havia momentos em que realmente não tínhamos ideia do que podíamos fazer por ela, visto que nem ela mesma conseguia expressar adequadamente o que queria. E, por conta da pandemia, o acesso a cuidadores e terapeutas ocupacionais que pudessem nos ajudar com adaptações foi muito prejudicado, sem falar no curso acelerado da doença, que também complicava ainda mais as coisas. No fim, sei que poderíamos ter feito mais, mas fizemos o que conseguimos no momento, e tento não me culpar por isso.

Ok, deixando de falar de mim e dos meus dramas pessoais, o livro também aborda a questão sobre como não se fala sobre a morte na faculdade de medicina. Fala-se sempre sobre curar, mas não se fala sobre cuidados paliativos — ou, se fala, é de uma maneira superficial, tanto que grande parte dos médicos acabam colocando a pessoa em coma induzido quando ela não está respondendo aos tratamentos e a doença continua piorando. Embora isso possa parecer ético, porque a pessoa supostamente não sofre no coma induzido, isso também rouba da pessoa a possibilidade de viver mais alguns dias; ao invés de remediar os sintomas específicos da pessoa, é mais fácil colocá-la para dormir até que o coração pare de bater. E, para combater isso, a autora cita que costuma dar um atestado dizendo que ao paciente é recomendado um processo de morte “natural”. Deixar que ele morra da doença, sim, com seus sintomas tratados na medida do possível, mas ainda assim vivo e consciente até seus últimos suspiros.

Claro que este livro me fez refletir bastante sobre o que passei com a minha mãe, mas também me fez refletir sobre o tabu que é se falar sobre a morte em geral. Claro que eu já tinha refletido sobre esse tabu, afinal desde a infância já saquei que as pessoas não gostavam muito quando eu acabava tocando no assunto “minha irmã que já morreu”. Como se fosse um peso enorme, como se eu tivesse trazido à conversa o seu próprio fim. E, sinceramente, falar sobre morte é difícil porque dói, porque nos lembra que somos finitos e que nós e todos aqueles que amamos um dia chegarão lá — mas só porque dói, não quer dizer que não é um assunto que deve ser trancado a sete chaves. A morte é tão importante quanto a própria vida, sendo seu ponto final e portanto o que completa o seu sentido, no fim das contas. E esse tabu em relação à morte é tão grande que até mesmo aqueles que são mais prováveis de lidar com ela, os médicos, pouco veem sobre ela durante seus estudos.

“O médico que foi treinado sob o conceito ilusório de ter poder sobre a morte está condenado a se sentir fracassado em vários momentos da carreira.”

Por fim, para mim, a parte mais interessante do livro foi, de fato, quando Ana Cláudia mostra um jeito de pensar sobre a morte a partir dos elementos, como fazem algumas filosofias não-ocidentais. A medida em que a autora narra o processo de morte pela dissolução de tais elementos, fui lembrando de todas as etapas da doença da minha mãe, e fui identificando a cada momento o que ia acontecendo. Apesar de não ter nenhuma fundamentação científica, o processo simplesmente faz sentido. E eu acho isso simplesmente sensacional, deixando claro que o positivismo tão entranhado no ocidente está longe de ser a única maneira de conhecer e fazer sentido do mundo em que vivemos.

“Passar por uma perda pode nos dar a percepção do tamanho do amor que fomos capazes de sentir por alguém, de como essa pessoa pode ter sido generosa ao esperar o nosso tempo de aceitar a morte dela.”

‘Cause there’s no comfort in the waiting room
Just nervous paces bracing for bad news
And then the nurse comes round
And everyone lifts their heads
But I’m thinking of what Sarah said
That “love is watching someone die”

What Sarah Said – Death Cab for Cutie
Livros / 24 de fevereiro de 2021

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo (Iain Reid)

Este livro me chamou a atenção logo pelo título. Sei que não podemos julgar um livro pela capa, mas podemos pelo título, certo? Como pessoa que lida com uma ideação suicida crônica, estas mesmas palavras já passaram pela minha cabeça inúmeras vezes, então automaticamente fiquei atraída pelo título. Antes mesmo de ver a sinopse, vi a opinião de outros leitores, que relataram uma sensação de medo e de angústia ao ler o livro. Sim, exatamente o que eu queria. Medo e angústia fictícia, porque já não basta as preocupações da vida real, não é mesmo?

O livro começa num carro, em uma viagem indo para a casa dos pais de Jake, namorado da protagonista (que não tem nome). Ao longo da viagem, a protagonista relata diversas vezes estar pensando em acabar com tudo, dando a entender que, na realidade, o livro se trata de um término de relacionamento, e não de suicídio como eu havia originalmente pensado. A história é narrada em primeira pessoa, ou seja, temos acesso constante aos pensamentos da protagonista, e pouco sabemos sobre Jake. Inclusive, a própria protagonista fala diversas vezes que nós nunca sabemos o que se passa na mente dos outros, mesmo das pessoas mais próximas e mais queridas. Uma verdade óbvia, porém igualmente perturbadora quando tomamos consciência disso.

Ao longo do jantar com os pais de Jake, vai ficando cada vez mais claro (ou confuso) que não se trata de uma narrativa realista. Como exemplo, cito o fato de que a protagonista vive recebendo ligações de seu próprio número, que deixa mensagens de voz sem muito sentido. É como se o universo em que as personagens se encontram estivesse dando alguns erros, glitches na Matrix. E, ao final do livro, existe uma explicação para isso — não muito óbvia, mas facilmente deduzível.

Eu devorei o livro, como geralmente faço quando me empolgo com alguma leitura. Em algumas noites, eu estava com os olhos fechando de sono, mas insistia em mantê-los abertos para continuar a história. Fiquei muito curiosa, tanto pelas bizarrices da história em si quanto pela misteriosa personagem principal, e se ela teria ou não coragem de terminar as coisas com Jake. Nas últimas páginas do livro, as coisas ficaram tão confusas que precisei pesquisar na internet para confirmar minhas suspeitas sobre a narrativa — eu adoro quando isso acontece, mas se você não gosta desse tipo de história, na qual as coisas de repente não fazem mais sentido e você precisa pensar um pouco para entender o que está acontecendo, então este livro não é para você.

Em alguns momentos, senti-me angustiada junto com a personagem principal. Achei que o autor conseguiu representar bem a sensação de estar sozinha e sentir que está enloquecendo aos poucos, porque, de repente, nada mais faz sentido. Porém, não diria que é uma narrativa muito original — eu mesma já criei diversas histórias parecidas na minha cabeça. Por fim, admito que gostei bastante do livro, adorei o fato de ter sentido sensações enquanto lia (se é que isso faz sentido), mas não sairia recomendado o livro para qualquer pessoa, pois sei que não é o tipo de livro para todo mundo.

Depois de terminar de ler, descobri que existe uma adaptação cinematográfica do livro feita porque ninguém mais, ninguém menos que Charlie Kaufman, conhecido pelo aclamado Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Fiquei bem interessada, mas ainda não assisti. Quem sabe, quando eu assistir, volto aqui para falar sobre. O que acham?

Abraços distantes e fiquem bem. ♡

Espiritualidade, Livros / 15 de fevereiro de 2021

Crítica: O Segredo (Rhonda Byrne)

Demorei muito tempo para ler este livro porque sempre tive muito preconceito com ele. Pessoas que conheço que leram este livro de repente viraram aquele tipo “good vibes only“, que eu detesto, e começaram a falar que eu não posso, de maneira nenhuma, pensar em algo negativo, ou estaria atraindo coisas ruins para mim. Já falei um pouco sobre isso neste texto aqui, sobre formas-pensamento.

Acontece que, recentemente, resolvi ler o livro só pelo desgosto. Com a força do ódio, terminei o livro em 3 dias, risos. E, apesar de não ter sido uma leitura tão ruim quanto achei que seria, tenho sim várias críticas ao livro. Bem, vamos começar do começo.

O Segredo é um livro escrito por Rhonda Byrne que foca na chamada Lei da Atração, que afirma que você atrai aquilo que você pensa. A autora fala que, usando pensamentos positivos, você é capaz de conseguir tudo que quiser: dinheiro, fama, saúde, entre outros. Se você, assim como eu, é crítico desse tipo de “milagre”, então vem comigo pra explorar melhor o que é e o que não é balela nesse livro.

De onde surgiu esse papo de Lei da Atração?

Eu sei, parece absurdo, mas Rhonda Byrne não pensou na Lei da Atração sozinha. Ela mesma fala sobre isso no livro, que bebeu de várias outras fontes para escrevê-lo. Mas ela não revela muito bem essas fontes, tirando o pequeno trecho da Tábua de Esmeralda logo nas primeiras páginas do livro.

Acontece que O Segredo nada mais é que uma reedição simplista de diversos textos iniciáticos, ou seja, textos sobre magia e ocultismo — textos que são compreendidos por pessoas iniciadas (por isso o nome iniciático) nas artes ocultas.

Rhonda afirma no livro que esse conhecimento ficou escondido porque as pessoas querem deter o poder só para elas. E, bem, por um lado pode até ser verdade, mas tem outro motivo pelo qual esse conhecimento é escondido: para que não surja livros como O Segredo.

Como disse anteriormente, este livro é simplista, ou seja, despreza uma série de informações importantes acerca do verdadeiro funcionamento da “lei da atração”. Quem estuda realmente ocultismo sabe que é preciso ler muito, é preciso fazer muitos exercícios e realmente se dedicar a esse estilo de vida para conseguir chegar a algum lugar (motivo pelo qual eu mesma não chego a me considerar ocultista, ao menos não por enquanto).

A tal da Lei da Atração existe, mas ela está longe de ser simples como Rhonda descreve no livro, e também não costuma ser referida por este nome. Se você tem interesse em entender de onde vem esse papo todo, recomendo uma leiturinha inicial bem bacana que deixa bem claro que não se trata de um simples “pensar positivo” para atrair coisas boas na vida: O Caibalion.

Nem todo pensamento é capaz de produzir resultados

Novamente, a lei da atração não é tão simples quanto Rhonda faz parecer. O que muita gente faz quando lê esse livro é decidir nunca mais pensar coisas negativas (pensamentos dos quais não temos controle, é claro; caso contrário ninguém pensaria nada negativo, pois é extremamente desagradável), ou nunca mais se permitir ficar triste ou sentir raiva. As pessoas chegam até mesmo a censurar os outros que não se policiam dessa forma, como se todo mundo tivesse que usar a lente cor-de-rosa que a pessoa usa para enxergar o mundo.

E por que isso? Porque essas pessoas entenderam tudo errado, por conta da explicação simplista que Rhonda traz. Essas pessoas acreditam tanto que você atrai o que você pensa que elas não conseguem se permitir ter pensamentos normais, como simplesmente se preocupar com coisas do dia-a-dia.

Porém, como eu falei no meu texto sobre formas-pensamento, não é todo pensamento ou sentimento que é capaz de criar formas-pensamento. Ou até pode ser que crie, mas não é capaz de manter a forma-pensamento “viva” se ela não for alimentada. Então a questão é muito mais não se deixar levar pelos pensamentos e sentimentos negativos — o que é importante para qualquer pessoa que deseja ter uma saúde mental equilibrada, independente de querer fazer magia ou não — do que não pensar negativo nunca.

Felizmente, o próprio livro fala que pensamentos negativos não são tão poderosos quanto os positivos. Embora isso não seja necessariamente verdade (os dois têm o mesmo poder, depende de qual você “alimenta”), pelo menos combate um pouco esse pensamento do “só posso pensar positivo” — infelizmente a maior parte das pessoas ignora isso, mas ok.

Em suma, não se trata de nunca se permitir se sentir mal, ou nunca permitir preocupações e pensamentos ruins, mas sim de saber regular essas emoções, sentimentos e pensamentos para que você possa seguir em frente. Esqueça a baboseira de “pare de pensar negativo e pense só positivo”, ou “good vibes only“. Aprenda a transformar seus sentimentos ao invés de reprimi-los: essa é a chave para a verdadeira inteligência emocional (e, consequentemente, bons resultados mágicos).

Limitações físicas

Uma das minhas maiores críticas a esse livro é quando ele fala sobre saúde. Rhonda desconsidera completamente as limitações físicas, como se tudo dependesse apenas do poder do pensamento. Ela chega a falar no livro que, se há uma epidemia de uma doença infecciosa, com a força do pensamento você não vai pegar a doença. E, bem, em plena pandemia de coronavírus, está mais do que claro que não é assim que a banda toca, não é mesmo?

Muitas pessoas negacionistas do vírus foram infectadas e até mesmo morreram por conta do vírus. Então não se trata de simplesmente pensar que você é imune, que você não irá pegar, porque sim, o vírus existe, teu corpo biológico existe, e ele pode perecer do vírus.

O problema é que O Segredo não leva em consideração questões como reencarnação, uma alma eterna, entre outros. Se você for estudar de verdade os textos iniciáticos que deram origem a’O Segredo, você vai perceber que não tem muito um porquê buscar saúde ou tentar evitar a morte com a magia, porque doença e morte são conceitos do mundo material, e este não é o mundo no qual um ocultista vive. Seu corpo vive aqui, sim, mas o ocultista não — ele sabe que a morte é um processo natural da evolução espiritual, e não a teme. No máximo, o mago irá buscar saúde na magia para realizar as missões que deseja realizar enquanto encarnado, mas não para escapar da morte a toda maneira, ou para consertar problemas pequenos como uma miopia fraca/moderada (exemplo que Rhonda cita no livro).

No fim, quando se trata de vida e morte, o poder do pensamento só pode auxiliar no processo de cura (junto com os tratamentos médicos) ou de qualidade de vida (em casos terminais), mas não é capaz de prevenir a morte de nenhuma forma.

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Se eu recomendo O Segredo? Bem, sim e não. Sim porque eu acho que cada um deve tirar suas próprias conclusões a respeito das coisas, então se você ficou curiose, vá atrás! Não se deixe levar só pelo que eu disse, porque eu também não sou uma baita ocultista (como disse antes, nem me considero ocultista de verdade, risos) que sabe de tudo e pode falar com muita propriedade das coisas. Mas, por fim, eu também não recomendo, porque, como eu disse, é algo muito simplista e pode ser um desserviço para algumas pessoas (especialmente as que viram good vibes only após a leitura). Se você quer ler alguma coisa que realmente aborde essas questões de uma forma mais séria, recomendo O Caibalion, que já linkei lá em cima.

Beijinhos e cuidem-se!