Masha Alkhim

Espiritualidade, Livros / 15 de fevereiro de 2021

Crítica: O Segredo (Rhonda Byrne)

Demorei muito tempo para ler este livro porque sempre tive muito preconceito com ele. Pessoas que conheço que leram este livro de repente viraram aquele tipo “good vibes only“, que eu detesto, e começaram a falar que eu não posso, de maneira nenhuma, pensar em algo negativo, ou estaria atraindo coisas ruins para mim. Já falei um pouco sobre isso neste texto aqui, sobre formas-pensamento.

Acontece que, recentemente, resolvi ler o livro só pelo desgosto. Com a força do ódio, terminei o livro em 3 dias, risos. E, apesar de não ter sido uma leitura tão ruim quanto achei que seria, tenho sim várias críticas ao livro. Bem, vamos começar do começo.

O Segredo é um livro escrito por Rhonda Byrne que foca na chamada Lei da Atração, que afirma que você atrai aquilo que você pensa. A autora fala que, usando pensamentos positivos, você é capaz de conseguir tudo que quiser: dinheiro, fama, saúde, entre outros. Se você, assim como eu, é crítico desse tipo de “milagre”, então vem comigo pra explorar melhor o que é e o que não é balela nesse livro.

De onde surgiu esse papo de Lei da Atração?

Eu sei, parece absurdo, mas Rhonda Byrne não pensou na Lei da Atração sozinha. Ela mesma fala sobre isso no livro, que bebeu de várias outras fontes para escrevê-lo. Mas ela não revela muito bem essas fontes, tirando o pequeno trecho da Tábua de Esmeralda logo nas primeiras páginas do livro.

Acontece que O Segredo nada mais é que uma reedição simplista de diversos textos iniciáticos, ou seja, textos sobre magia e ocultismo — textos que são compreendidos por pessoas iniciadas (por isso o nome iniciático) nas artes ocultas.

Rhonda afirma no livro que esse conhecimento ficou escondido porque as pessoas querem deter o poder só para elas. E, bem, por um lado pode até ser verdade, mas tem outro motivo pelo qual esse conhecimento é escondido: para que não surja livros como O Segredo.

Como disse anteriormente, este livro é simplista, ou seja, despreza uma série de informações importantes acerca do verdadeiro funcionamento da “lei da atração”. Quem estuda realmente ocultismo sabe que é preciso ler muito, é preciso fazer muitos exercícios e realmente se dedicar a esse estilo de vida para conseguir chegar a algum lugar (motivo pelo qual eu mesma não chego a me considerar ocultista, ao menos não por enquanto).

A tal da Lei da Atração existe, mas ela está longe de ser simples como Rhonda descreve no livro, e também não costuma ser referida por este nome. Se você tem interesse em entender de onde vem esse papo todo, recomendo uma leiturinha inicial bem bacana que deixa bem claro que não se trata de um simples “pensar positivo” para atrair coisas boas na vida: O Caibalion.

Nem todo pensamento é capaz de produzir resultados

Novamente, a lei da atração não é tão simples quanto Rhonda faz parecer. O que muita gente faz quando lê esse livro é decidir nunca mais pensar coisas negativas (pensamentos dos quais não temos controle, é claro; caso contrário ninguém pensaria nada negativo, pois é extremamente desagradável), ou nunca mais se permitir ficar triste ou sentir raiva. As pessoas chegam até mesmo a censurar os outros que não se policiam dessa forma, como se todo mundo tivesse que usar a lente cor-de-rosa que a pessoa usa para enxergar o mundo.

E por que isso? Porque essas pessoas entenderam tudo errado, por conta da explicação simplista que Rhonda traz. Essas pessoas acreditam tanto que você atrai o que você pensa que elas não conseguem se permitir ter pensamentos normais, como simplesmente se preocupar com coisas do dia-a-dia.

Porém, como eu falei no meu texto sobre formas-pensamento, não é todo pensamento ou sentimento que é capaz de criar formas-pensamento. Ou até pode ser que crie, mas não é capaz de manter a forma-pensamento “viva” se ela não for alimentada. Então a questão é muito mais não se deixar levar pelos pensamentos e sentimentos negativos — o que é importante para qualquer pessoa que deseja ter uma saúde mental equilibrada, independente de querer fazer magia ou não — do que não pensar negativo nunca.

Felizmente, o próprio livro fala que pensamentos negativos não são tão poderosos quanto os positivos. Embora isso não seja necessariamente verdade (os dois têm o mesmo poder, depende de qual você “alimenta”), pelo menos combate um pouco esse pensamento do “só posso pensar positivo” — infelizmente a maior parte das pessoas ignora isso, mas ok.

Em suma, não se trata de nunca se permitir se sentir mal, ou nunca permitir preocupações e pensamentos ruins, mas sim de saber regular essas emoções, sentimentos e pensamentos para que você possa seguir em frente. Esqueça a baboseira de “pare de pensar negativo e pense só positivo”, ou “good vibes only“. Aprenda a transformar seus sentimentos ao invés de reprimi-los: essa é a chave para a verdadeira inteligência emocional (e, consequentemente, bons resultados mágicos).

Limitações físicas

Uma das minhas maiores críticas a esse livro é quando ele fala sobre saúde. Rhonda desconsidera completamente as limitações físicas, como se tudo dependesse apenas do poder do pensamento. Ela chega a falar no livro que, se há uma epidemia de uma doença infecciosa, com a força do pensamento você não vai pegar a doença. E, bem, em plena pandemia de coronavírus, está mais do que claro que não é assim que a banda toca, não é mesmo?

Muitas pessoas negacionistas do vírus foram infectadas e até mesmo morreram por conta do vírus. Então não se trata de simplesmente pensar que você é imune, que você não irá pegar, porque sim, o vírus existe, teu corpo biológico existe, e ele pode perecer do vírus.

O problema é que O Segredo não leva em consideração questões como reencarnação, uma alma eterna, entre outros. Se você for estudar de verdade os textos iniciáticos que deram origem a’O Segredo, você vai perceber que não tem muito um porquê buscar saúde ou tentar evitar a morte com a magia, porque doença e morte são conceitos do mundo material, e este não é o mundo no qual um ocultista vive. Seu corpo vive aqui, sim, mas o ocultista não — ele sabe que a morte é um processo natural da evolução espiritual, e não a teme. No máximo, o mago irá buscar saúde na magia para realizar as missões que deseja realizar enquanto encarnado, mas não para escapar da morte a toda maneira, ou para consertar problemas pequenos como uma miopia fraca/moderada (exemplo que Rhonda cita no livro).

No fim, quando se trata de vida e morte, o poder do pensamento só pode auxiliar no processo de cura (junto com os tratamentos médicos) ou de qualidade de vida (em casos terminais), mas não é capaz de prevenir a morte de nenhuma forma.

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Se eu recomendo O Segredo? Bem, sim e não. Sim porque eu acho que cada um deve tirar suas próprias conclusões a respeito das coisas, então se você ficou curiose, vá atrás! Não se deixe levar só pelo que eu disse, porque eu também não sou uma baita ocultista (como disse antes, nem me considero ocultista de verdade, risos) que sabe de tudo e pode falar com muita propriedade das coisas. Mas, por fim, eu também não recomendo, porque, como eu disse, é algo muito simplista e pode ser um desserviço para algumas pessoas (especialmente as que viram good vibes only após a leitura). Se você quer ler alguma coisa que realmente aborde essas questões de uma forma mais séria, recomendo O Caibalion, que já linkei lá em cima.

Beijinhos e cuidem-se!

Espiritualidade / 10 de fevereiro de 2021

Sobre ser uma estrela

“Todo homem e toda mulher é uma estrela”

Aleister Crowley

Faz algum tempo que eu não estou mais triste. Como pessoa que convive com o transtorno afetivo bipolar, sei que é só uma questão de tempo até que eu volte a ser triste. E eu digo ser, mas no sentido de estar, pois obviamente nós nunca somos nada. Ou, se somos, então somos o resultado de nossas circunstâncias, tanto internas quanto externas. E, se você entendeu o meu ponto, então compreende que se trata de uma flexibilidade imensa, uma capacidade de mutação incrivelmente grande, e por isso nós não somos objetivamente nada. Nós sempre estamos sendo.

E é nesse estar sendo que mora a verdade da vida, algo que eu talvez tenha demorado tempo demais para perceber. Na realidade, eu sempre soube — todas as respostas para todas as questões que perguntamos estão sempre dentro de nós mesmos, só estamos frequentemente ocupados demais para perceber isso.

Porque a verdade é que nós passamos tempo demais morando nas desculpas, morando nos infortúnios do dia-a-dia, para lembrar que podemos ir muito além disso. Colocamo-nos em posições extremamente limitadas, quando podemos estar sendo um universo inteiro. O mundo é grande demais pra gente continuar só olhando pro nosso próprio umbigo. E, por mais contraditório que pareça, é olhando para nosso próprio umbigo que percebemos isso.

Eu passei a minha vida inteira correndo da minha própria vontade. Sempre que surgiam caminhos que me lavavam para onde queria ir, eu preferia fazer a curva. Porque a verdade é que eu não suportaria a ideia de sofrer no caminho que sempre quis trilhar. Então, se eu fosse por outros caminhos, ao menos no final eu teria a desculpa de que não estava fazendo o que realmente queria, então tudo bem se não desse certo, tudo bem se terminasse em algum tipo de falha. E, por não ser o que eu realmente queria, não poderia haver um resultado diferente.

Passei tanto tempo da minha vida me preocupando com as consequências indesejadas dos meus feitos que acabei me esquecendo do que realmente importa: a alegria do fazer em si.

Quanto mais valorizamos algo, maiores serão nossas resistências para realizar esses feitos. E isso é lógico, não queremos nos machucar. Contudo, o medo de se machucar é paralisante, e este não deveria ser, nem de longe, o foco de nossos pensamentos. Afinal, “o medo da morte é o medo da vida”.

Não é uma questão de nunca pensar nas consequências ou ignorar eventuais riscos, mas sim de perceber para onde sua energia está direcionada. Nossa mente tem um certo limite de quanta energia consegue mobilizar em prol de uma ação, então focá-la nos potenciais riscos é, no fim das contas, extremamente contraprodutivo.

A questão é que nenhum caminho é reto, nenhuma escolha é segura. Nada é certeiro. Estamos o tempo todo apostando com o universo. Mas, novamente, todos somos estrelas. E toda estrela tem o poder de brilhar. Então, como você quer brilhar?

Occvlt / 5 de fevereiro de 2021

Formas-pensamento: bênção ou maldição?

“Toda bênção ignorada se torna uma maldição”

Paulo Coelho

A mente humana é extremamente poderosa. Tão poderosa que estudiosos das artes ocultas falam sobre um fenômeno chamado “forma-pensamento” ou “forma mental”. O que isso quer dizer?

Basicamente, uma forma-pensamento é quando um pensamento toma forma no plano astral, o que pode posteriormente ser usado em rituais mágicos para fazer com que o pensamento possa se manifestar no plano material também. Na verdade, é bem mais complexo que isso, mas eu também não sou nenhuma ocultista super estudada para conseguir explicar direito o que é uma forma-pensamento, então vamos seguir com esta definição simplista, sim?

Dizem os ocultistas e espiritualistas que estas formas-pensamento são facilmente formadas, mas precisam ser alimentadas para que continuem existindo. Por isso, se criamos uma forma-pensamento com algum objetivo no mundo material, por exemplo, precisamos alimentá-la frequentemente para que ela possa se manifestar neste plano. Caso contrário, a forma-pensamento se desfaz. Contudo, grande parte dos ocultistas e espiritualistas irão dizer que você não pode consumir coisas relacionadas a certos assuntos, pois você irá, de forma involuntária, criar formas-pensamento negativas que irão atrair espíritos e entidades mal intencionadas; como se fosse uma sujeira astral que convidasse a entrada de animais “sujos”, como baratas.

Eu cresci a minha vida inteira ouvindo isso. Ouvindo que não deveria me vestir só de preto, porque preto é uma cor negativa, que acaba influenciando pensamentos e criando essas formas-pensamento negativas e atraindo coisas ruins. Também não podia ouvir música pesada, com gritos, que falassem sobre dor, sobre sentimentos de revolta, sobre o ódio, sobre a tristeza, sobre os aspectos “negativos” da emoção humana, pois estaria criando essas formas-pensamento e atraindo coisas ruins. Além disso, toda vez que eu me sentisse triste, ou com raiva, ou com qualquer sentimento desagradável que fosse, eu precisava reprimir este sentimento para que ele não pudesse acabar criando formas-pensamento negativas que, novamente, viriam a atrair coisas negativas.

Quem lê este blog sabe que eu tenho um interesse bem grande pela temática da morte, e gosto de usar quase que exclusivamente o preto (e inclusive me sinto mal se estiver vestindo outras cores), e acredito que a melhor maneira de lidar com os sentimentos negativos é deixando-os existir, permitindo sua expressão, para enfim conseguir regular-se emocionalmente. Ou seja, eu sou uma pessoa que deveria viver rodeada de formas-pensamento lixo e diversos espíritos mal intencionados ao meu redor, seguindo esta lógica que ouço desde que me entendo por gente.

Então por que a minha vida não é uma desgraça?

Alguém consegue me explicar?

Por que, se eu crio tanta coisa ruim com os meus sentimentos negativos, com a minha autoestima baixa, com as minhas crises depressivas (que eu não controlo pois, bem, eu tenho um transtorno mental do qual não tenho controle algum), por que diabos a minha vida é ok? Por que eu consigo levar uma vida? Por que eu não acordo de noite com 5 demônios puxando o meu pé?

E a resposta está em: criar e manter formas-pensamento não é tão fácil assim. E os mesmos ocultistas e espiritualistas que falam que você cria essas formas pensamento a todo instante vão te falar exatamente isso; que criar e manter essas formas mentais requer uma grande quantidade de concentração e canalização de energias. Em suma, uma pessoa comum, não treinada nas artes ocultas, deveria ter bastante dificuldade em criar formas-pensamento.

As formas-pensamento só podem ser criadas quando há uma grande quantidade de energia sendo investida em sua criação. Ou seja, sentir um pouco de raiva por causa dos infortúnios do dia-a-dia não é o suficiente para criar e manter essas formas mentais. Da mesma forma, simplesmente escutar músicas com letras agressivas não é o suficiente para deslocar uma grande quantidade de energia psíquica para criar tais formas-pensamento negativas e atrativas para entidades mal intencionadas. Assistir vídeos sobre true crime ou pesquisar sobre serial killers não é o suficiente para criar formas-pensamento referentes à morte que podem atrair espíritos ou sugestionar pensamentos assassinos.

Tudo isso vai depender de quanta energia você de fato desloca para a criação destas formas-pensamento. Lembra que é necessário muita concentração e energia para criá-las e mantê-las, e que além disso é necessário alimentá-las? Pois bem.

Não quero dizer que nós nunca criamos formas-pensamento de forma inconsciente. Pelo contrário, como estudante de psicologia, eu sei que a nossa mente consegue deslocar muita energia para certas coisas inconscientes, que acabam alimentando certos complexos que temos. Sendo assim, acredito que é sim super possível acabarmos criando formas-pensamento negativas de forma inconsciente. Contudo, isso ocorre quando negamos a nossa sombra, quando ruminamos mágoas, quando permitimos que nossos sentimentos negativos tomem conta de nós. Ou seja, não é por eu sentir raiva por alguém ter me xingado que eu crio uma forma-pensamento negativa, mas eu posso sim criá-la de forma inconsciente a partir do momento em que eu pego essa raiva e a alimento de alguma forma, seja guardando rancor da pessoa, planejando uma vingança ou coisas do tipo, pois este tipo de coisa acaba, sim, deslocando muita energia psíquica.

Eu sentir uma emoção negativa e ouvir uma música triste ou agressiva, por exemplo, pode me ajudar na regulação emocional, permitindo que eu manifeste este sentimento de uma forma saudável, ao invés de reprimi-lo ou guardá-lo e remoê-lo com frequência. Ou seja, consumir uma mídia que supostamente cria formas-pensamento negativas na realidade acaba por impedir que eu more neste sentimento ruim e acabe criando a tal forma-pensamento.

Os vídeos de true crime que assisto não me deixam com vontade de matar alguém. Pelo contrário, me deixam cada dia mais perplexa ao pensar que o ser humano é extremamente complexo e capaz de muitas coisas, e a minha simpatia para com as vítimas na realidade alimentam sentimentos nobres como o amor, a empatia, a gratidão, a gentileza, entre outros. Ou seja, acaba tendo um efeito completamente contrário do que me disseram a minha vida inteira.

Então, se criar e manter uma forma-pensamento é algo tão complicado assim, por que passei a minha vida inteira ouvindo que não podia isso ou aquilo para evitar atrair coisas ruins? Bem, é simples: trata-se da moralização da espiritualidade, ou até mesmo uma cristianização do pensamento ocultista.

A religião cristã tem uma questão moral muito forte, na qual sentimentos negativos são imorais, a sexualidade é imoral em diversos aspectos, o dinheiro é imoral, entre outros. Contudo, na realidade, absolutamente tudo isso é neutro. Possuem suas vantagens e desvantagens, e cabe ao indivíduo expressar de qual lado da balança ele está. As coisas não são objetivamente ruins ou boas, elas apenas são — o mago/ocultista/indivíduo é que atribui um juízo de valor.

Se não fosse assim, qualquer pessoa que lida com o crime (criminosos, mas também os policiais, cientistas forenses, entre outros) ou com a morte (coveiros, médicos legistas, mas também médicos cirurgiões, plantonistas, enfermeiros etc.) teriam suas vidas completamente arrasadas, por estarem cercados de acontecimentos ruins e sentimentos negativos que criariam uma quantidade enorme de “lixo astral”. E nós sabemos que não é assim que a banda toca.

Onde eu quero chegar com este texto é: ocultistas, espiritualistas e demais estudiosos dessas questões, decidam-se. Ou criar e manter formas mentais é uma coisa tão fácil e simples que elas podem surgir a partir de qualquer sentimento ou pensamento que temos (que traz uma lógica punitiva cristã), ou criar e sustentar formas mentais requer tanta energia que apenas mentes treinadas com muitos exercícios de visualização e deslocamento de energia para este fim podem conseguir. Os dois não dá.