× Home Autora Sobre Blogroll

Dear Diary: sobre solidão e a fantasia como mecanismo de defesa

18 de outubro de 2021 — Entretenimento

Dear Diary (Meu Amante da Babilônia) me chamou atenção logo em seu lançamento por um motivo: Wang Ruichang. Após ficar fascinada pela sua atuação como Lu Shiyi em A River Runs Through It, fiquei com vontade de ver outros trabalhos dele — como geralmente faço quando gosto de um ator ou atriz, risos. Logo que terminei A River Runs Through It, começou o lançamento de Dear Diary, e até agora ele não foi disponibilizado completamente para nós reles mortais que não pagamos o VIP do Youku. No entanto, gostaria de falar das minhas primeiras impressões deste drama por um motivo: ele me tocou mais fundo do que imaginei que iria.

O plot é bem simples e até mesmo ridículo: é a história de uma mulher solitária. Durante a adolescência, Chen Meiru (interpretada por Bu Guanjin) era muito sozinha e sonhava com seu príncipe encantado. Após uma visita escolar a um museu com a temática Babilônia, Meiru começou a escrever um diário no qual contava a história de um príncipe, Murong Jielun (interpretado por Rhydian Vaughan), que seria seu príncipe encantando e a amaria e protegeria para sempre.

Depois de ser pega com o diário na mão por uma professora, que leu algumas passagens de seus escritos para os outros colegas, Meiru passou a sofrer bullying e começou a odiar o diário. Só tinha um problema: estava escrito que, na noite do seu aniversário de 24 anos, seu príncipe cairia do céu para amá-la e protegê-la.

Já na vida adulta, vemos uma Meiru que se tornou uma pessoa bastante reservada e até mesmo… sem sal. Uma mulher solitária e um pouco amargurada, que trabalha para uma agência de segurança na internet e seu trabalho é basicamente tirar do ar conteúdos impróprios (principalmente eróticos). Claramente uma referência ao seu passado e seu trauma de ter suas fantasias expostas e ridicularizadas.

Acontece que, na noite do seu aniversário de 24 anos — que ela nem mesmo queria comemorar —, o príncipe babilônio de seu diário, Murong Jielun, realmente vem à vida. E, junto dele, vem todas as outras personagens e situações que ela descreveu em seu diário quando tinha apenas 12 anos.

Você pode conferir o trailer (legendado em inglês) deste drama clicando aqui.

Apesar de ser claramente um drama de comédia, a obra toca em alguns pontos que doem um pouco. Chen Meiru é claramente uma menina muito solitária com uma imaginação muito ávida, e depois dos acontecimentos que ocorreram quando sua professora pegou seu diário, sua autoestima e autoconfiança são completamente arruinadas. Foi uma menina que não apenas teve seus sonhos e fantasias roubados de suas mãos, mas que também foi ridicularizada por isso.

Embora fantasiar e ter expectativas seja algo completamente normal na idade em que Meiru estava, ter passado por essa exposição e ridicularização matou duas das coisas mais importantes dentro dela: sua criatividade e espontaneidade. Na idade adulta, vemos uma mulher solitária que morre de medo de relações interpessoais e faz de tudo para evitá-las, pois este é um espaço de muita dor para Chen Meiru.

Tudo isso fica muito claro quando, no episódio 5, durante um retiro no qual precisa praticar uma dieta específica e perde toda sua liberdade, Meiru inicia um solilóquio que grita seu desespero diante das relações interpessoais:

“Não quero que meus vizinhos falem comigo quando nos esbarramos no elevador. Não falem comigo. Não visito parentes nos casamentos e celebrações. Não me perguntem sobre meu trabalho agora. Eu estou infeliz o tempo todo”.

Depois, no episódio 7, temos um momento no qual Meiru está conversando com sua rival do amor, também saída do diário: a Ninth Heaven Dragon Lady. A personagem foi criada com o propósito de ser sua rival e nem mesmo recebeu um nome para si, por isso ela é sempre chamada pelo título. Na conversa, as duas falam sobre como uma queria ser a outra: Meiru projetou na Dragon Lady tudo aquilo que ela queria ser quando era pequena — uma princesa, bonita, com um grande poder —, enquanto Dragon Lady confessa que tudo que queria era ser Meiru, a mulher amada pelo príncipe Murong Jielun.

Nesta cena, é possível perceber duas coisas: a primeira é que, desde o começo, Meiru sempre se viu como uma menina sem graça que jamais poderia competir com uma princesa real. Quem sabe isso indique uma autoestima meio ruim desde sua infância, não sendo então um produto apenas dos traumas dessa época. Em segundo lugar, fica claro como Meiru queria conseguir ser mais do que sentia ser, e de certa forma a criação de uma personagem como Ninth Heaven Dragon Lady foi uma maneira de ela conseguir externalizar uma parte de si mesma que não foi capaz fazer até então. Porém, com os acontecimentos que decorrem na escola, Meiru jamais foi capaz de desenvolver o potencial que tinha para se tornar a princesa que tanto queria ser.

Pode-se pensar, também, na possibilidade de Meiru não conseguir conceber a ideia de que uma mulher forte e independente pode ser digna de amor, tendo em vista que precisou criar duas personagens para representar essas duas facetas: a Dragon Lady, que tem tudo, menos o amor do príncipe, e ela mesma, que não tem nada além do amor incondicional de Murong Jielun.

“Talvez, para uma pessoa que não sabe nada sobre amor, ela não irá perceber que é amor, mesmo que esteja rodeada por ele”.

Nesta cena, pode-se pensar que Meiru está falando sobre si mesma. Ela não consegue reconhecer as próprias emoções e necessidades, então dificilmente seria capaz de reconhecer amor quando o recebesse. Depois de ver essas cenas, percebi que esse drama toca em algumas questões que não são tão simples e que, mesmo sendo comédia, não seria uma coisa tão light de se assistir.

Meiru claramente não conhece a si mesma, não se ama, não confia ou acredita em si mesma. Sua autoestima é péssima e o melhor que pode fazer por si mesma desde o início foi recorrer à fantasia. Admito que sou uma pessoa muito parecida — desde criança, desenvolvi uma condição chamada maladaptive daydreaming, uma espécie de sonhar acordado compulsivo. Demorei anos para descobrir o que é isso e o quanto isso me prejudicava, e depois que percebi foi muito doloroso admitir para mim mesma que eu vivia muito mais em minhas fantasias e como isso me impedia de viver a minha vida real. Certamente, Meiru fez um caminho inverso: ao passar por tudo aquilo durante sua adolescência, parou de sonhar e deixou sua fantasia de lado.

Embora tenhamos seguido caminhos diferentes, ainda me reconheço em Meiru em sua solidão, na vergonha que sente pela sua fantasia, na sua dificuldade em ver as relações interpessoais como um espaço de prazer e de trocas e não necessariamente de dor, na autocensura dos próprios desejos e vontades, no papel de personagem claramente secundária mas que por algum motivo é a protagonista da história, enfim.

Ao longo dos episódios, minha identificação com Meiru só cresce, e me pergunto se algum dia ela conseguirá se curar e começar a ter um contato real com suas próprias emoções, desejos e fantasias, sendo capaz não apenas de sonhar mas também realizar aquilo que almeja. Quem sabe os personagens que vieram do diário apareceram em sua vida justamente para isso — acordá-la e ensiná-la a tomar as rédeas da própria vida, mostrando que ela pode sim ser a princesa que sempre sonhou em ser; e, de quebra, também pode ser amada. Resta agora saber se tais personagens tem apenas este propósito e irão embora no final da trama, ou se realmente terão um papel ainda maior na história do que simplesmente fazer Meiru acordar.

Sei que minhas fantasias não vão se tornar realidade — o que é ótimo, porque dependendo do meu humor essas fantasias podem ser um tanto quanto inadequadas (sim, eu estou falando sobre quando estou com muita raiva, boto música alta e me imagino sendo um monstrão atacando cidades e destruindo vidas). Porém, também sei que estou neste caminho de entender a mim mesma e conseguir, finalmente, ser a protagonista da minha própria história, ao invés de alguém que só fica vendo as coisas passarem. Espero que eu e Meiru consigamos nos tornar aquilo que temos o potencial de ser.


2 respostas em “Dear Diary: sobre solidão e a fantasia como mecanismo de defesa”

Shana disse:

Oi Maria!

Eu queria ter ânimo e energia pra assistir todos os doramas que você indica, porque todos me parecem ou gostosos ou muito incríveis de alguma forma. Gosto da ideia de que as novelinhas que antes éramos julgadas por assistir ou por não problematizar o suficiente agora abrem espaço pra discutir questões humanas, sociais, profundas e importantes.
Ou talvez eu esteja refletindo em excesso, sei lá. Me identifiquei um pouco com a personagem conforme você foi narrando, e principalmente com os quotes que você colocou, hahaha!

Admirando como sempre sua capacidade de fazer textos maravilhosamente bem e trazer conteúdo chique pro blog~

Beijinhos :*

Ailuros disse:

eu adoro o como esses doramas conseguem tratar de assuntos tão complexos de uma forma tão nítida… eu super me identifico com Meiru, inclusive tive o mesmo incidente do diário na minha vida e até hoje eu tenho muito poblema em me expressar na vida real.

quando eu estudava coreano eu assistia mais doramas, mas de uns tempos pra cá eu comecei a ficar sensível demais e acabava me sentindo mal com os coitado sofrendo husahushuahushauu

adorei a forma com que você fez essa análise, realmente me deu uma certa curiosidade pra assistir também, e a forma que vc aborda o aspecto mais emocional é maravilhosa.

adorei seu blog, vou colocar nos favoritos pra visitar sempre <3

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *