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I’d never blame you for that

29 de agosto de 2021 — Escritos

Dizem que quem é vivo sempre aparece, e eu sempre achei esse ditado muito estranho porque eu nunca estive muito bem viva e costumo ser a rainha do ghosting dependendo do meu humor. Eu não vou mentir e dizer que estava com saudades do blog, pois não estava. Pensei em abandonar de vez isso aqui, e admito que ainda cogito esta possibilidade. Meu amor por front-end dev não morreu, mas a falta de tempo que tenho tido para me dedicar a isso tem me feito querer passar longe de qualquer coisa que sirva de gatilho pra eu querer mexer num código aqui ou lá, e isso inclui meu próprio blog bem como outros blogs que adoro ler, infelizmente. Sinto muito por isso, a quem ainda se interessa pela minha leitura e meus comentários completamente viajados e desnecessários.

Eu tenho pensado muito sobre mim mesma. Sobre meus defeitos, sobre como eu me relaciono com as pessoas. E a verdade é que eu sou uma pessoa bem ruim, mas estou longe de ser um lixo completo. No fim, acho que sou apenas uma pessoa normal, como qualquer outra: em momentos, sou tóxica, em outros, sou um amor de pessoa. É sobre isso e tá tudo bem, sim. Especialmente porque tenho criado consciência disso. Sinto que estou evoluindo — a passos de tartaruga, claro, mas ainda assim evoluindo.

Claro que isso não seria possível sem a ajuda do meu psicólogo, do meu namorado e das minhas amizades. Porém quem eu mais gostaria de agradecer, no fim das contas, é a mim mesma. Porque eu resolvi encarar meus defeitos — ou ao menos parte deles — de frente e assumir minha responsabilidade sobre eles. Eu admiti que eu não preciso ser uma pessoa perfeita, e nem quero isso, e eu quero honrar os meus defeitos — não no sentido de deixar que eles se manifestem livremente, mas no sentido de assumí-los e lidar com eles na medida do que eu consigo. Uma espécie de redução de danos psicológica.

Uma vez vi um tweet da @shimabukkake falando que ela precisava parar de falar que era feia pois seu rosto também é o rosto de suas antepassadas. Eu sei bem que, como pessoa não racializada, minha vivência é completamente diferente, mas não posso mentir e dizer que isso não pegou em mim de alguma forma. Eu comecei a ver muito mais beleza em mim desde que minha mãe se foi, pois comecei a reconhecer no meu corpo traços dela — afinal de contas, 50% do meu material genético é ela, de certa forma.

Só que eu queria levar isso um pouco mais adiante. Eu não vejo minha mãe apenas nos meus traços físicos. Eu também vejo minha mãe na minha forma de pensar, na minha forma de agir, no meu temperamento. E tem dias que eu acho que é por isso que às vezes a gente não se dava tão bem, por isso que às vezes a gente tinha muita dificuldade em manter uma relação pacífica. Não vou entrar no mérito de que relações mãe-filha frequentemente são bem complicadas até por questões psicológicas; vou focar aqui simplesmente nas semelhanças mesmo. O que ela não gostava e não admitia nela mesma, ela jogava em mim. E isso me fez mal por muito tempo. Hoje em dia, vejo claramente que o problema não era eu apenas, mas nós duas evidenciando claramente a sombra uma da outra.

E meu Deus, quanto tempo eu não passei pensando “Céus, permita-me ser diferente da minha mãe”. Porque eu sei o quanto os defeitos da minha mãe causaram mal-estar em outras pessoas, e sei que eu tenho a tendência de ir pelo mesmo caminho. Dizem que a fruta nunca cai muito longe do pé, não é mesmo? E é verdade.

Minha mãe era bastante controladora em alguns aspectos; eu também sou. Algumas coisas que ela não gostava ou não sabia lidar, ela virava as costas e não admitia. Eu também sou assim. Quando algo realmente a irritava, ela não aceitava que outros discordassem dela — e, sim, no fundo, eu também sou assim. Tudo isso são defeitos que minha mãe tinha e que eu carrego comigo, e não adianta eu querer insistir nessa perspectiva infantil de que eu não quero ser que nem minha mãe. Não é uma questão de querer. Eu sou e ponto. A questão mesmo é o que eu posso fazer para lidar com isso, para amenizar os impactos desses defeitos na minha vida, nas minhas relações interpessoais.

E o mais difícil em tudo isso é não me odiar. Porque eu passei minha vida inteira odiando a mim mesma por ser assim. E eu continuo tendo dificuldades, todos os dias, em não me odiar por tudo isso. Mas aí eu lembro da minha mãe. Lembro do quanto, mesmo com todos esses defeitos, ela era amada. Por mim, por meu pai, por meu irmão, pelos amigos, por todos que a conheciam. Apesar de tudo, minha mãe era uma das pessoas mais amadas que eu já conheci na minha vida — e uma das que mais amou aos outros também.

E, se mesmo com tudo isso, ela era amada, então eu também posso ser. E odiar a mim mesma é, até um ponto, odiar a minha mãe. E embora o amor não seja essa coisa pura que dizem ser, mas sim um sentimento bem ambivalente vez ou outra, o fato é que eu amo minha mãe, mesmo com todos os defeitos, e sinto sua falta todos os dias. E, levando em conta que parte de mim é ela, eu não tenho o direito de não amar a mim mesma.

I understand you had to leave to make your way back
I’d never blame you for that


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