Espiritualidade, Livros

Crítica: O Segredo (Rhonda Byrne)



Demorei muito tempo para ler este livro porque sempre tive muito preconceito com ele. Pessoas que conheço que leram este livro de repente viraram aquele tipo “good vibes only“, que eu detesto, e começaram a falar que eu não posso, de maneira nenhuma, pensar em algo negativo, ou estaria atraindo coisas ruins para mim. Já falei um pouco sobre isso neste texto aqui, sobre formas-pensamento.

Acontece que, recentemente, resolvi ler o livro só pelo desgosto. Com a força do ódio, terminei o livro em 3 dias, risos. E, apesar de não ter sido uma leitura tão ruim quanto achei que seria, tenho sim várias críticas ao livro. Bem, vamos começar do começo.

O Segredo é um livro escrito por Rhonda Byrne que foca na chamada Lei da Atração, que afirma que você atrai aquilo que você pensa. A autora fala que, usando pensamentos positivos, você é capaz de conseguir tudo que quiser: dinheiro, fama, saúde, entre outros. Se você, assim como eu, é crítico desse tipo de “milagre”, então vem comigo pra explorar melhor o que é e o que não é balela nesse livro.

De onde surgiu esse papo de Lei da Atração?

Eu sei, parece absurdo, mas Rhonda Byrne não pensou na Lei da Atração sozinha. Ela mesma fala sobre isso no livro, que bebeu de várias outras fontes para escrevê-lo. Mas ela não revela muito bem essas fontes, tirando o pequeno trecho da Tábua de Esmeralda logo nas primeiras páginas do livro.

Acontece que O Segredo nada mais é que uma reedição simplista de diversos textos iniciáticos, ou seja, textos sobre magia e ocultismo — textos que são compreendidos por pessoas iniciadas (por isso o nome iniciático) nas artes ocultas.

Rhonda afirma no livro que esse conhecimento ficou escondido porque as pessoas querem deter o poder só para elas. E, bem, por um lado pode até ser verdade, mas tem outro motivo pelo qual esse conhecimento é escondido: para que não surja livros como O Segredo.

Como disse anteriormente, este livro é simplista, ou seja, despreza uma série de informações importantes acerca do verdadeiro funcionamento da “lei da atração”. Quem estuda realmente ocultismo sabe que é preciso ler muito, é preciso fazer muitos exercícios e realmente se dedicar a esse estilo de vida para conseguir chegar a algum lugar (motivo pelo qual eu mesma não chego a me considerar ocultista, ao menos não por enquanto).

A tal da Lei da Atração existe, mas ela está longe de ser simples como Rhonda descreve no livro, e também não costuma ser referida por este nome. Se você tem interesse em entender de onde vem esse papo todo, recomendo uma leiturinha inicial bem bacana que deixa bem claro que não se trata de um simples “pensar positivo” para atrair coisas boas na vida: O Caibalion.

Nem todo pensamento é capaz de produzir resultados

Novamente, a lei da atração não é tão simples quanto Rhonda faz parecer. O que muita gente faz quando lê esse livro é decidir nunca mais pensar coisas negativas (pensamentos dos quais não temos controle, é claro; caso contrário ninguém pensaria nada negativo, pois é extremamente desagradável), ou nunca mais se permitir ficar triste ou sentir raiva. As pessoas chegam até mesmo a censurar os outros que não se policiam dessa forma, como se todo mundo tivesse que usar a lente cor-de-rosa que a pessoa usa para enxergar o mundo.

E por que isso? Porque essas pessoas entenderam tudo errado, por conta da explicação simplista que Rhonda traz. Essas pessoas acreditam tanto que você atrai o que você pensa que elas não conseguem se permitir ter pensamentos normais, como simplesmente se preocupar com coisas do dia-a-dia.

Porém, como eu falei no meu texto sobre formas-pensamento, não é todo pensamento ou sentimento que é capaz de criar formas-pensamento. Ou até pode ser que crie, mas não é capaz de manter a forma-pensamento “viva” se ela não for alimentada. Então a questão é muito mais não se deixar levar pelos pensamentos e sentimentos negativos — o que é importante para qualquer pessoa que deseja ter uma saúde mental equilibrada, independente de querer fazer magia ou não — do que não pensar negativo nunca.

Felizmente, o próprio livro fala que pensamentos negativos não são tão poderosos quanto os positivos. Embora isso não seja necessariamente verdade (os dois têm o mesmo poder, depende de qual você “alimenta”), pelo menos combate um pouco esse pensamento do “só posso pensar positivo” — infelizmente a maior parte das pessoas ignora isso, mas ok.

Em suma, não se trata de nunca se permitir se sentir mal, ou nunca permitir preocupações e pensamentos ruins, mas sim de saber regular essas emoções, sentimentos e pensamentos para que você possa seguir em frente. Esqueça a baboseira de “pare de pensar negativo e pense só positivo”, ou “good vibes only“. Aprenda a transformar seus sentimentos ao invés de reprimi-los: essa é a chave para a verdadeira inteligência emocional (e, consequentemente, bons resultados mágicos).

Limitações físicas

Uma das minhas maiores críticas a esse livro é quando ele fala sobre saúde. Rhonda desconsidera completamente as limitações físicas, como se tudo dependesse apenas do poder do pensamento. Ela chega a falar no livro que, se há uma epidemia de uma doença infecciosa, com a força do pensamento você não vai pegar a doença. E, bem, em plena pandemia de coronavírus, está mais do que claro que não é assim que a banda toca, não é mesmo?

Muitas pessoas negacionistas do vírus foram infectadas e até mesmo morreram por conta do vírus. Então não se trata de simplesmente pensar que você é imune, que você não irá pegar, porque sim, o vírus existe, teu corpo biológico existe, e ele pode perecer do vírus.

O problema é que O Segredo não leva em consideração questões como reencarnação, uma alma eterna, entre outros. Se você for estudar de verdade os textos iniciáticos que deram origem a’O Segredo, você vai perceber que não tem muito um porquê buscar saúde ou tentar evitar a morte com a magia, porque doença e morte são conceitos do mundo material, e este não é o mundo no qual um ocultista vive. Seu corpo vive aqui, sim, mas o ocultista não — ele sabe que a morte é um processo natural da evolução espiritual, e não a teme. No máximo, o mago irá buscar saúde na magia para realizar as missões que deseja realizar enquanto encarnado, mas não para escapar da morte a toda maneira, ou para consertar problemas pequenos como uma miopia fraca/moderada (exemplo que Rhonda cita no livro).

No fim, quando se trata de vida e morte, o poder do pensamento só pode auxiliar no processo de cura (junto com os tratamentos médicos) ou de qualidade de vida (em casos terminais), mas não é capaz de prevenir a morte de nenhuma forma.

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Se eu recomendo O Segredo? Bem, sim e não. Sim porque eu acho que cada um deve tirar suas próprias conclusões a respeito das coisas, então se você ficou curiose, vá atrás! Não se deixe levar só pelo que eu disse, porque eu também não sou uma baita ocultista (como disse antes, nem me considero ocultista de verdade, risos) que sabe de tudo e pode falar com muita propriedade das coisas. Mas, por fim, eu também não recomendo, porque, como eu disse, é algo muito simplista e pode ser um desserviço para algumas pessoas (especialmente as que viram good vibes only após a leitura). Se você quer ler alguma coisa que realmente aborde essas questões de uma forma mais séria, recomendo O Caibalion, que já linkei lá em cima.

Beijinhos e cuidem-se!

4 respostas em “Crítica: O Segredo (Rhonda Byrne)”

Neko disse:

Oi Masha! Primeiramente, toda vez que eu entro aqui dou de cara com um layout diferente, você realmente estava falando serio quando disse que faria mais de 12 layouts por ano HAHAHAHAH mas, fico feliz que tenha mudado pra uma plataforma que você gosta mais!

Agora, sobre a postagem… vou admitir que quando aprendi um pouco sobre essa lei da atração eu fui um pouco good vibes only e isso eh extremamente irritante, ainda bem que sai dessa, mas, hoje em dia o que eu tento é nao direcionar pensamentos ruins a outras pessoas, se da pra entender. Claro que, ficar brava com alguém e com raiva momentânea é uma coisa, mas eu tento nao desejar nada a ninguém que eu considere ruim.

Eu acredito nisso porque minha mãe é espírita e já me falou algumas coisas sobre, então eu entendo a critica e como isso pode (e pelo visto já foi) mal interpretado. Mas é exatamente o que você diz no outro texto sobre forma-pensamento (alias, ótima leitura, você escreve muuuuito bem e explica de forma clara) que, se as coisas fossem tão simples assim, quem trabalha, por exemplo, com a morte todo dia teria uma carga muito pesada.

Eu acredito que qualquer um pode criar uma forma-pensamento mas, ela realmente tem que ser alimentada. Fiquei bem curiosa, tanto sobre esse livro quanto o outro que você recomendou, vou procurar ler os dois, eu gosto desses assuntos mas, estou evitando me aprofundar muito porque sei que depois vou ficar um pouquinho obcecada HAHAHAHA mas, vou colocar na lista de leitura!

Beeeeeeijos!
Ps: eu adoraria ler mais posts voltados pro ocultismo, é muito interessante!

snow disse:

Acho que um consenso bacana sobre a onda de positividade gerada pelo livro se deve a lei da atração, onde os leitores encontraram no livro aquilo que tanto queria ler. Vai saber né? Tanto positiva quanto negativamente a obra teve lá seu impacto, por mais que até agora eu não tenha a mínima vontade de lê-la :B

victor disse:

oi masha!

fico feliz de finalmente ter aprendido a comentar aqui porque eu gosto muito de ler o que tu escreve. teu blog tá muito lindo e mesmo sendo mais novo e não tão próximo a ti, fico muito orgulhoso de ti por realizar esse sonho de ter um wordpress. parabéns ♡

eu entendo esse descontentamento com as pessoas good vibes, até porque ironicamente elas sempre são maldosas e bem, grandes filhas da puta né? isso me incomoda também. eu lembro de estudar na bruxaria sobre algo que achei similar ao que foi descrito por lei da atração porque eles dizem que, quando você deseja muito alguma coisa, você canaliza seu potencial energético nisso e o universo meio que atrai isso pra você. acho que da maneira explicada nos livros faz sentido mas as pessoas deturpam bastante, juntamente como tu disse.

Nunca tinha ouvido falar sobre esse livro, mas consigo absorver de ti a maneira rasa como ele se aproveita e minimiza assuntos profundos vindos de outros lugares. Isso me incomoda bastante — que livros tão aclamados sejam, nas tuas palavras mesmo, simplistas. eu gostei muito da tua crítica porque ela me fez perceber enquanto lia o porquê de eu não gostar de determinadas coisas que eu, de fato, não gosto. eu fico de fato muito angustiado quando as pessoas comentam tanto sobre evitar morte, evitar doenças e etc. porque de fato o mundo material não é tudo e ao tentar parecer alguém conectado ao espiritual, essas pessoas “good vibes” acabam apenas demonstrando o quão materialistas são.

beijo!

Érica santos disse:

Oi Má, não sei, creio que essa de força de pensamento não existe, creio que é mais pelo que se faz, do que pelo que se pensa, todavia que se você alimenta algo no seu interior seja ele bom ou ruim, você pode acabar se levando ao fazê-lo.
Não acredito nessa história de não ter pensamentos negativos, creio que a parti daí você consegue criar novos pensamentos positivos, (creio).
Beijos flor!

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Masha, 26. Uma das coisas que mais amo nessa vida é escrever, motivo pelo qual não consigo simplesmente viver sem um blog.

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