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Sobre não ─ e nem querer ─ ser uma boa pessoa

16 de abril de 2021 — Escritos

Sinto que tanta coisa aconteceu desde o último post, mesmo que, na realidade, eu ainda esteja navegando pela sensação quase universal de que todo dia é o mesmo dia. O último ano da faculdade está sendo mais pesado do que eu imaginava, não somente porque ele é objetivamente pesado, mas também porque subjetivamente está tudo tão caótico na minha cabeça que sinto que meu corpo é inteiro feito de chumbo e para simplesmente conseguir sair da cama no dia-a-dia tem sido um sacrifício.

Acho que estou no início de uma fase depressiva, e sei muito bem os gatilhos que me trouxeram até este momento. Eu só não sei direito o que fazer, porque todas as técnicas que aprendi com anos de terapia e com anos de faculdade parecem impossíveis de realizar em um momento no qual minha cabeça só consegue pensar em como a vida é uma longa espera pela morte.

É estranho porque, recentemente, estive em maior contato com a minha espiritualidade e percebi que a morte, em si, não me é tão desagradável quanto parece ser. Tanto que, atualmente, já não consigo mais me importar com a moral que dita que jamais podemos desejar a morte a alguém. E isso é algo que me tirou um peso tremendo porque, apesar de ser um grupo seleto de pessoas que eu gostaria que não mais estivessem neste mundo, pouco importa se eu acho que é certo ou errado eu pensar na morte de tais pessoas; a questão não é que eu não posso desejar, a questão é que eu simplesmente não controlo este desejo e ponto. Não tem porquê eu me sentir culpada pelas coisas que eu não controlo.

Eu cresci a minha vida inteira ouvindo falar sobre karma, sobre como não podemos alimentar o karma porque se fizermos ou pensarmos coisas ruins, estaremos então atraindo coisas ruins até nós. Porém, recentemente, eu percebi que o karma não é uma moeda de troca: não basta você ser uma pessoa boa para que apenas coisas boas aconteçam a você. Na realidade, o karma é muito mais parecido com as ondas do mar; elas batem porque tem que bater, e pouco importa se você fez algo para merecer isso ou não. Você irá passar por momentos de tempestade e calmaria independente do que você faça, então não adianta ficar se culpando pelos infortúnios que ocorrem como se eles fossem culpa de alguma atitude que você teve em algum momento no passado, seja nesta vida ou em qualquer outra. Os ciclos se repetem indeterminadamente, e não existe uma relação de culpa no movimento natural das coisas: ninguém culpa o dia pela existência da noite.

A verdade é que eu fui criada para sentir culpa. Culpa pelos meus desejos, culpa pelas minhas ações, culpa pelos meus pensamentos, culpa pelos meus meros sentimentos e emoções momentâneas. De tudo isso, a única coisa que eu consigo controlar de fato são minhas ações, então não faz sentido algum eu me sentir culpada por todo o resto.

O corpo humano precisa de alimento para sobreviver. O alimento é uma coisa boa, é delicioso, promove o bem-estar tanto físico quanto mental. No entanto, após a ingestão, ocorre todo um processo de digestão que acarreta na formação das fezes, que é frequentemente vista como algo ruim. Porém, na realidade, é apenas algo natural, e algo do qual temos nojo pelo simples fato de que não faz bem para nós ingerir novamente.

A verdade é que, no fim das contas, o mesmo ocorre com tudo em nossas vidas. Existem diversas situações ao nosso redor que, quando nossa psique consegue digerí-la, resulta em pensamentos ou sentimentos que não são socialmente bem vistos ou até mesmo são subjetivamente desagradáveis. E a todo o tempo as pessoas tentam nos falar que é errado termos estes pensamentos e sentimentos, que não podemos sentir raiva ou ódio, bem como não podemos pensar ou desejar o mal a alguém ─ pouco importa o quão mal esta pessoa nos fez. Só que, no fim das contas, as coisas simplesmente não são assim. Nós não somos culpados pela produção desagradável de nossas mentes. Responda-me, de maneira sincera: você sente culpa por defecar? Pois bem. Não deveria sentir culpa por ter pensamentos “negativos”, então.

Somos seres complexos demais para sermos governados por leis morais absolutas, ter nossas vivências, pensamentos e sentimentos castrados simplesmente por não serem agradáveis. Somos levados a acreditar que somos culpados por tudo de ruim que acontece conosco, e a realidade está longe de ser assim. Não vou entrar em detalhes do porquê nos fazem acreditar nisso, mas certamente tem a ver com o fato de que, desta forma, é possível com que outros detenham o poder sobre nós. Por fim, a culpa não passa de um sentimento desagradável para o qual pouco importa a verdadeira responsabilidade que temos diante da situação. É por isso que pessoas consideradas boas são massacradas pelo peso da culpa constantemente.

Eu me recuso a ser uma boa pessoa.


2 respostas em “Sobre não ─ e nem querer ─ ser uma boa pessoa”

Shana disse:

Eu tinha um amigo que dizia: odeio quando dizem que tenho cara de bonzinho, porque bonzinho pra mim é trouxa.

Taí uma verdade absoluta. Eu acredito piamente que a gente ter nascido numa sociedade majoritariamente cristã, pautada nos ‘bons costumes e na lei de deus’, tem muito a ver com essas culpas que sentimos o tempo todo. Afinal, não importa se você pensou algo ruim por um segundo, num momento horrível: deus tá vendo!

O fato de que a mesma religião que não nos permite nada (segundo as pessoas, no caso) diz que o ser humano recebeu o livre arbítrio. Nós temos o poder de livre escolha, de lidar com as consequências daquilo que escolhemos pra nós, mas ainda assim, não podemos escolher tanto assim. Essa filosofada toda que eu fiz pra dizer que é isso mesmo, ao meu ver: a nossa cultura inventa uma série de coisas pra nos controlar. Quase como se nos fizessem engolir um juiz moral, que se aloja em nós e fica constantemente nos julgando nas pequenas coisas.

Quem me dera ter o poder de desejar uma coisa e ela de fato acontecer, né? Já tinha sumido com uns governantes e baladeiros de plantão aí nesse ano de pandemia.

Pessoalmente, quando comecei a aprender isso na faculdade, foi libertador. Se existe algo que controla nosso destino e nossas vidas, certamente não sou eu – e se eu desejei o mal de alguém que me fez mal, que achei que merecia e o mal encontrou essa pessoa, fazer o que? Não sei o que ela andou plantando na vida pra colher isso.

E também é imensamente libertador saber que meus desejos, pensamentos e atitudes não são responsáveis pelo que chega em mim. A vida tem suas fatalidades, seus abismos e depressões, e nem sempre a gente pode escolher fugir disso ou não. E quando é no plano das relações, a gente não controla os outros, e se eles nos fazem mal, não necessariamente tem a ver com a gente – as vezes a pessoa é um estruminho, né, fazer o quê. As maçãs podres estão aí no meio da safra.

Eu sinto muito de você estar num momento mais depressivo (também estou. Descobri recentemente que além do combo pandemia + quarentena interminável + falta de convívio social, eu tenho quedas de humor na TPM. Que maravilha, né?), mas adorei o texto. Acho que o mundo seria melhor se todo mundo chegasse a essa conclusão em algum momento.

Enfim Masha, difícil não fazer textão comentando seu blog -q Espero que as ondas da vida te tragam um pouco de leveza e energia, e que a faculdade não sufoque muito. Beixíneos! :*

Érica santos disse:

Tenho sentido esses dias mais pesados também, nas últimas semanas tenho achado muito dificil, mais sei porque.
Essa história de cara de bonzinho é tão absurda, as pessoas precisam que sejamos bonzinho só pra aproveitarem de nós.
Tenho tido muitos pensamentos ruins, não tem como controlar isso, não tenho sentindo nenhum remorso disso.

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