Sobre sonhos e o “processo de cura”

25 de março de 2021 — Diarices, Reflexões

Trigger Warning/Aviso de Gatilho: traumas, abuso sexual infantil, luto.

Esta noite, eu tive um dos sonhos mais significativos em muito tempo. Claro, tenho sonhos significativos direto — acontece quando você gosta de ficar “analisando” os próprios sonhos¹ —, mas geralmente nenhum deles fala comigo tão claramente quanto este.

O sonho era um clipe. Ou melhor, dois clipes. Uma banda (existente apenas na minha fantasia) tinha feito dois clipes para duas versões de uma mesma música. Um clipe era continuação do outro, e essa é a informação chave desde sonho. Um clipe era continuação direta do outro.

O primeiro clipe retratava um protagonista masculino andando por uma instituição de ensino, que acredito ter sido a escola em que ele estudou quando criança. Ele andava e observava os detalhes com um olhar nostálgico, mas também angustiado, que faria a audiência questionar o que teria acontecido naquela instituição no passado para que o protagonista se sentisse daquela forma. A letra da música falava sobre momentos difíceis, claramente um trauma na vida do protagonista. Porém, ao final da canção, ficava claro um sentimento de superação, mostrando que, aos poucos, o protagonista estava conseguindo ressignificar suas vivências, impedindo que a sombra do trauma transformasse tudo em um universo de escuridão e desespero.

Eis que começava o segundo clipe. Passava-se na mesma escola, e a música era idêntica no início. Até que, em uma determinada cena, o protagonista se sentava ao lado de um zelador já idoso, e olhava para ele com olhos carregados de sentimentos como raiva e culpa. Então, a música mudava drasticamente de tom, contendo agora berros e guitarras distorcidas, revelando uma profunda angústia até então supostamente superada. A audiência então é levada a um flashback no qual o protagonista, agora criança, era sexualmente abusado pelo zelador, desvelando assim o conteúdo do trauma que o protagonista carregava consigo pelos corredores da instituição. O clipe terminava com cenas escurecidas nas quais o protagonista saía correndo pela instituição, como se estivesse tentando liberar a raiva contida de alguma forma, ou até mesmo tentando fugir da sombra que agora pairava sobre seu mundo. Não sei dizer claramente.

De qualquer forma, ao final dos dois clipes, fiquei curiosa acerca dessa ordem. Não faria mais sentido o segundo clipe ser mostrado antes, e o primeiro clipe então mostraria a superação do protagonista?

E foi aí que caiu a ficha. A obra, como um todo, tratava-se do tal “processo de cura”. Entre aspas porque não sei se é possível falarmos de uma cura de fato, como uma pessoa que se livra de uma doença e nunca mais é importunada pela mesma. A “cura” psíquica, ao meu ver, nunca é uma cura neste sentido — e é exatamente isso que a obra mostrava. Não se trata de um processo linear, mas sim de uma espécie de montanha russa, com diversos altos e baixos. Às vezes, os vales podem ser maiores que os picos, mas isso pode ser compensado pela presença de picos mais compridos do que os vales.

Quando se trata de um trauma, a cura nunca é assim:

Ela sempre é assim:

E essa linha se estende pelo tempo necessário; não raramente até os últimos dias de vida. Certas coisas, levaremos conosco para nossos caixões. E o mais importante é que tá tudo bem. O mais importante é que a obra tentava mostrar que não tem problema ter recaídas, e que está tudo bem nunca realmente superar um trauma. Dói, machuca, mas é parte da vida. O que não pulsa está morto.

É claro que a minha história pessoal é completamente diferente da história do protagonista. Os sonhos frequentemente nos mostram as mensagens que precisamos ouvir, mas de formas completamente mascaradas. O meu trauma não tem nenhuma semelhança com o trauma vivido pelo protagonista, a não ser o fato de que pulsa, o fato de que se faz presente, o fato de que está sempre ameaçando cobrir o meu mundinho com sua escuridão.

Eu frequentemente sonho com os conteúdos do meu trauma. Não é raro que eu tenha sonhos nos quais está acontecendo tudo de novo. E tudo isso me faz me questionar até que ponto eu estou superando este trauma e até que ponto ainda é algo que mobiliza muita energia em mim. Estou começando os estágios clínicos este semestre, e uma demanda que esperamos que surja frequentemente é o luto, e eu pessoalmente tenho medo que isso mexa demais comigo, afinal de contas, até mesmo para mim, a ferida ainda está bem aberta.

Pessoalmente falando, acredito que este sonho veio para me mostrar que tudo bem a ferida ainda estar aberta, tudo bem eu continuar sangrando um pouquinho de vez em quando. Isso não vai se resolver em pouco tempo, eu ainda terei que lidar com diversas recaídas. E isso não deveria ser, jamais, um motivo para que eu pare de fazer o que estou fazendo: ajudar a promover a saúde mental. Eu não posso deixar a possibilidade de um conteúdo mexer comigo me impedir de exercer a minha profissão. Pelo contrário, às vezes mobilizar toda essa energia em conjunto pode trazer transformações benéficas até mesmo à minha própria saúde mental.

Por fim, gostaria de compartilhar esta mensagem. O sonho foi meu, mas pode dizer muita coisa para muitas pessoas. Precisamos sempre lembrar que o processo de cura nunca é linear, e que não tem problema nenhum precisar de ajuda quando nos encontramos nos vales profundos.

¹ Coloquei “analisando” entre aspas porque acredito que o processo de autoanálise é sempre uma questão meio complicada, e uso o termo aqui no sentido original da palavra, não psicológico. A palavra análise significa literalmente quebrar algo em partes, frequentemente com o objetivo de inspecionar mais cuidadosamente estas partes, e é basicamente isso que faço com meus sonhos: separo alguns componentes mais significativos e tento compreender que mensagem poderia estar sendo passada para mim, mas, claro, não é a mesma coisa do que ter um psicólogo ajudando nesse processo. Achei importante deixar esse disclaimer aqui: se você quer entender seus próprios sonhos, recomendo procurar um psicólogo (em especial psicanalistas e psicólogos junguianos).